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P(R)O(BL)EMA DE NATAL

Quinta-feira, 15.12.11

 

Por isso o não encontrava

neste ano de todas as indignações...

 

chegou em forma de convocatória

sem traje vermelho, sem manjedoura, sem menino,

sem magos, que os reis, esses sempre andaram nus

independentemente da nossa cegueira...

 

impôs-se-me no limiar de todos possíveis desenganos

tentando confundir-me pela data,

entrou pela caixa de correio em vez de utlizar a chaminé

e ofereceu-me 485 euros em troca do que já não posso fazer

[a termo, que a incompreensão toca a todos e o grito é sempre curto

para descrever o que é absurdo...]

 

Por isso o não conseguia sentir

neste ano de todas as provocações...

 

em vez de incenso e mirra

levarei comigo uma ordem que não posso cumprir

 

ardam os pavios de todas as velas que não posso comprar

para que, ao menos, as todo-poderosas estastísticas 

brilhem nesta democracia do faz-de-conta!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 15.12.2011 - 02.50h

 

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publicado por poetaporkedeusker às 02:07

CICLO I

Segunda-feira, 28.11.11

Num presente qualquer,

fora do tempo,

morrerá o Homem Impoluto

 

 

Onde mil outros nascerem

de cada letra da palavra necessidade

derramada no húmus do seu sonho

o mundo será mundo

por ainda uma outra eternidade!


 

 

Maria João Brito de Sousa - 28.11.2011 - 16.18h

 

Imagem retirada da internet

 

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publicado por poetaporkedeusker às 16:10

O OUTRO LADO DO POEMA

Quinta-feira, 15.09.11

Foi do outro lado do poema

que te falei do tapete puído das metáforas

e das mãos crispadas sobre o segredo das horas

estava lá tudo isso

e ainda o que nem eu poderia decifrar.

foste tu quem o não soube ver…

 

resmungas?

que culpa tenho eu se a inércia te prendeu

aos floreados da capa de papel de seda,

à estampa introdutória,

à tampa do baú dos sustos insuspeitos?

que culpa tenho

se por aqui ficaste embevecido, cego, enfeitiçado?

 

como se a magia da forma

desistisse ali mesmo,

onde termina a aparência do poema

e onde se determina que o poema é aparência!

 

os poemas, incauto,

redefinem os corpos a cada por do sol

e saúdam o luar dispersos em mil faces,

mil arestas, mil vértices como punhais

que às vezes arredondam

para não ferir a lua

pois só a ela pouparão o impacto perfurante

das verdades mais cruas e vorazes

 

isso deverias sabê-lo tu,

não eu que nada conheço da geometria do desejo

para além da elevação do sonho

ao cubo de si mesmo

e penso vir a morrer de uma anunciada indigestão

de puríssima ignorância

 

mas teria sido exactamente aí,

na face que te recusaste a ler

e das profundezas que não soubeste adivinhar,

que ele te teria falado até que não pudesses suportá-lo

e o reduzisses à forma inicial

caso ele se apiedasse da tua comoção

 

teria sido aí

que ele te mostraria

a inevitabilidade das coisas transmutadas

pelos olhos do leitor

até ao infinitamente absurdo

que é e será sempre

a causa primeira de todos os impensáveis gestos de um poema

 

agora,

agora sei lá quantas luas se passaram,

quantas arestas se multiplicaram,

quantos vértices se não arredondaram

e quantos olhos, que não teus,

o espalharam por aí, em estilhaços,

na órbita irregular de todos os acasos

 

e tu, incauto,

ainda não compreendeste

que um poema é um poço sem fundo,

um abismo aberto sob a vertigem dos sentidos,

uma montanha invertida por escalar

e uma faca apontada ao coração do conformismo?

 

 

Maria João Brito de Sousa – 15.09.2011 – 04.42h 

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publicado por poetaporkedeusker às 04:49

NESSE DIA

Sexta-feira, 01.07.11

Nesse dia não houve mais medos

no palco do sonho

e todos amanhecemos

na dimensão da esperança

 

Nenhum de nós

fugiu ao alheio olhar,

nem os braços hesitaram no desconforto da dúvida

ou os lábios silenciaram o grito

neste país então vestido de canções,

então aberto à construção da vontade de todos

vermelha,

tão vermelha no seu despontar…

 

nesse dia

então extasiado

- ele e nós extasiados,

tão extasiados da liberdade conquistada… -

clareou um céu cheio de abraços

por detrás de todas as grades,

na voz de todos os amigos silenciados

e, acima de tudo,

 

foi o cravo a desenhar os sonhos,

a erguer-se nas armas e nas mãos,

a tomar conta das veias das ruas,

a derramar-se num Tejo em maré alta,

a escapulir-se Atlântico afora,

 

Até sempre, até todos os dias por chegar!

 

E foi inevitável o vermelho

nos amanhãs  desse dia

hoje naufragado em alheio mar,

despido de sonho, veias e vontade,

numa jangada incolor, de remos obedientes

a um leme que treme sob o olhar de uns tantos

 

 

Maria João Brito de Sousa

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publicado por poetaporkedeusker às 12:02

QUE PENA! - Um poema anti-poético e egoísta, para quando fizer falta rosnar

Segunda-feira, 30.05.11

 

Que pena!

Tenho tanta pena de ter pena

dos olhos de luar que não tiveste,

da refeição frugal que não fizemos

no tal dia em que não nos encontrámos…

 

Dessas mãos de sal que te não vi,

sublimando a saudade em gestação,

subiria – talvez…-  o aceno prometido

... ou nem sequer esboçado, à luz de tão tardio.

 

Nos teus lábios que nunca experimentei

- porque não eram lábios

os riscos trémulos e desbotados

que jamais desenhámos

sobre a suspeição do beijo…-

um sorriso clonado

de todos os esgares que lhe foram anteriores

 

 

Que pena das horas que não passámos juntos

nessas manhãs…

essas que nos encerram

na urgência banal e rotineira

- tão desmesuradamente banal e rotineira! -

do desejo insuspeitável

que adivinho

no refrão de cada cantilena…

e das tardes,

quem sabe?

atarefadas, burguesas,

passeando entre o plano do fogão de quatro bicos

 e a perpendicular do mar…

 - desse mar que só pode ser olhado por um,

de cada vez… -

aborrecendo o momento seguinte,

barulhentas, conflituosas e – porque não?

tão iguais às que são “só dos outros”…

 

Mas pena,

pena a sério,

pena crua e inenarrável,

daquela que magoa,

rasga por dentro e deixa cicatriz…


Pena teria eu de não ser quem eu sou!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 28.05.2011 -14.47h

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publicado por poetaporkedeusker às 14:18

PRONTO-A-COMER

Terça-feira, 26.04.11

 

Quando o dedo do tédio

me aponta as entranhas das coisas vazias,

esquivo-me ao derradeiro anzol

e devoro poesia.

 

Há sempre uma vertigem

quando a refeição

é um vislumbre de saudade

que agarro, tempero

mordo e saboreio

em gestos competentes,

convergindo na degustação das rimas

tantas vezes bravas,

amargas e ásperas,

colhidas nas margens do acaso,

sem forma, sem textura,

a saltar da previsível marinada da reflexão

para a combustão inevitável

da mastigação do primeiro texto que  me seduza

sobre a bandeja da fome imperativa

 


prato-poema

 

 …ou  rábula de um tédio

que nunca assombrará

as entranhas vazias

de uma saudade-coisa-aprisionada

por anzóis que a impedirão de ser provada

antes da assimilação do último dos versos

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 24.04.2011 – 17.48h

  

 

 

Imagem retirada da internet

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publicado por poetaporkedeusker às 17:18

SEM MEIAS TINTAS

Sexta-feira, 08.04.11

 

Eram simpáticos,

medianamente simpáticos

nos seus cumprimentos

e nos seus sorrisos

mais ou menos artificiais,

mais ou menos impostos,

mais ou menos convenientes

 

Ele,

a partir desse dia,

aborrecera

flores, lacinhos, veludos e doirados…

aborrecera os meio-doces

rebuçados de hortelã-pimenta,

as meias-criações,

as meias-paixões,

as meias-convicções

e todas as meias-tintas

que perturbassem

o canto genuíno do melro,

o uivo do lobo absoluto,

o rosnido do lince interior

 

Sequóias!

Ainda se lhe dessem sequóias

de raiz presa à terra

como as vozes dos deuses menores…

 

Ainda se lhe dessem

esses arranha-céus de fibra e floema

que aspiram aos longes dos astros

mais ou menos longínquos 

e lhe renovassem a promessa

de ascender com eles…

 

Mas tudo o que se lhe cumpria

eram aqueles meios sorrisos,

aqueles rictos e rituais

mais ou menos postiços

que afirmavam

agradar ao Deus sem tamanho

a quem atribuíam

todas as autoridades…

 

excepto a de aborrecer

as meias-genuinidades

 

 

Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h

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publicado por poetaporkedeusker às 11:57

BREVES PEIXES DE ESCAMA CADUCA

Quinta-feira, 31.03.11

 

Nós, os de olhos reclusos

Num infinito demarcado por metas,

Breves peixes de escama caduca

Na copa vítrea de um sonho qualquer,

Mordendo ilusões de um pomo menor,

Pontuamos, tão só, pela diferença

De impulsionar as barbatanas

Sabendo

Que poderíamos escapar

Mas que jamais o quereremos fazer sozinhos

 

Nos dias roubados às noites de insónia,

As coisas sésseis,

Que não mexem,

Nem deixam de mexer

- coisas sonhadas, de motilidade hipotética –

Impulsionam-nos mais e mais,

A nós,

Breves peixes de escama caduca

De olhos reclusos num infinito

Pré-determinado por um sonho

Que sabemos construido

Sobre cada uma

Das nossas escamas

 

 


 

Maria João Brito de Sousa – 31.03.2011 – 09.53h

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publicado por poetaporkedeusker às 12:01

SEPARAÇÃO - em quatro andamentos

Quarta-feira, 09.03.11

1 - Davam-se as mãos

     E largavam-nas

     Na impaciência de um gesto recorrente

 

2 - Voltavam a unir-se

     Pontualmente

    Na urgência de uma chama qualquer

    E logo se desuniam

   Como se ela os queimasse

 

3 - Cada vez mais recorrentemente

     Se impacientavam

     E as mãos desafiavam as leis da Matemática

     Multiplicando-se em desuniões

     Sem que chama alguma as tivesse unido

 

4 - Deixaram de unir as mãos

     Quando perceberam

     Que a chama apagada

     Queimava mais ainda

     E nenhuma impaciência sugeriu

     Que pudesse acender-se de novo

 

 

 

Maria João – 05.03.2011 – 16.52h

 

 

 

Imagem retirada da internet

 

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publicado por poetaporkedeusker às 14:30

ESCOVO-ME...

Segunda-feira, 07.03.11

 

Que hei-de fazer de mim?

Venho de um qualquer mundo

Que não consta

No Mapa Astral da humana inspiração

E cobre-me este pó de sonhos

Que tento

E não consigo escovar bem…

 

Talvez seja defeito da escova

Que engendrei,

À falta de melhor,

De uns restos

Da ansiedade que encontrei por aí

Pendendo

Como limos de um mar que nunca aceito

E amarrei

A um cabo de incertezas

Que perderam o prazo de validade…

 

Mas que me importa

A eficácia do artefacto

Se nem sequer vislumbro

A origem da poalha que me cobre?


 

E escovo, escovo, escovo, escovo…

 

 


 

Maria João – 05.03.2011 – 16.20h

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publicado por poetaporkedeusker às 11:38





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