P(R)O(BL)EMA DE NATAL
Por isso o não encontrava
neste ano de todas as indignações...
chegou em forma de convocatória
sem traje vermelho, sem manjedoura, sem menino,
sem magos, que os reis, esses sempre andaram nus
independentemente da nossa cegueira...
impôs-se-me no limiar de todos possíveis desenganos
tentando confundir-me pela data,
entrou pela caixa de correio em vez de utlizar a chaminé
e ofereceu-me 485 euros em troca do que já não posso fazer
[a termo, que a incompreensão toca a todos e o grito é sempre curto
para descrever o que é absurdo...]
Por isso o não conseguia sentir
neste ano de todas as provocações...
em vez de incenso e mirra
levarei comigo uma ordem que não posso cumprir
ardam os pavios de todas as velas que não posso comprar
para que, ao menos, as todo-poderosas estastísticas
brilhem nesta democracia do faz-de-conta!
Maria João Brito de Sousa - 15.12.2011 - 02.50h
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CICLO I
Num presente qualquer,
fora do tempo,
morrerá o Homem Impoluto
Onde mil outros nascerem
de cada letra da palavra necessidade
derramada no húmus do seu sonho
o mundo será mundo
por ainda uma outra eternidade!
Maria João Brito de Sousa - 28.11.2011 - 16.18h
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O OUTRO LADO DO POEMA
Foi do outro lado do poema
que te falei do tapete puído das metáforas
e das mãos crispadas sobre o segredo das horas
estava lá tudo isso
e ainda o que nem eu poderia decifrar.
foste tu quem o não soube ver…
resmungas?
que culpa tenho eu se a inércia te prendeu
aos floreados da capa de papel de seda,
à estampa introdutória,
à tampa do baú dos sustos insuspeitos?
que culpa tenho
se por aqui ficaste embevecido, cego, enfeitiçado?
como se a magia da forma
desistisse ali mesmo,
onde termina a aparência do poema
e onde se determina que o poema é aparência!
os poemas, incauto,
redefinem os corpos a cada por do sol
e saúdam o luar dispersos em mil faces,
mil arestas, mil vértices como punhais
que às vezes arredondam
para não ferir a lua
pois só a ela pouparão o impacto perfurante
das verdades mais cruas e vorazes
isso deverias sabê-lo tu,
não eu que nada conheço da geometria do desejo
para além da elevação do sonho
ao cubo de si mesmo
e penso vir a morrer de uma anunciada indigestão
de puríssima ignorância
mas teria sido exactamente aí,
na face que te recusaste a ler
e das profundezas que não soubeste adivinhar,
que ele te teria falado até que não pudesses suportá-lo
e o reduzisses à forma inicial
caso ele se apiedasse da tua comoção
teria sido aí
que ele te mostraria
a inevitabilidade das coisas transmutadas
pelos olhos do leitor
até ao infinitamente absurdo
que é e será sempre
a causa primeira de todos os impensáveis gestos de um poema
agora,
agora sei lá quantas luas se passaram,
quantas arestas se multiplicaram,
quantos vértices se não arredondaram
e quantos olhos, que não teus,
o espalharam por aí, em estilhaços,
na órbita irregular de todos os acasos
e tu, incauto,
ainda não compreendeste
que um poema é um poço sem fundo,
um abismo aberto sob a vertigem dos sentidos,
uma montanha invertida por escalar
e uma faca apontada ao coração do conformismo?
Maria João Brito de Sousa – 15.09.2011 – 04.42h
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NESSE DIA
Nesse dia não houve mais medos
no palco do sonho
e todos amanhecemos
na dimensão da esperança
Nenhum de nós
fugiu ao alheio olhar,
nem os braços hesitaram no desconforto da dúvida
ou os lábios silenciaram o grito
neste país então vestido de canções,
então aberto à construção da vontade de todos
vermelha,
tão vermelha no seu despontar…
nesse dia
então extasiado
- ele e nós extasiados,
tão extasiados da liberdade conquistada… -
clareou um céu cheio de abraços
por detrás de todas as grades,
na voz de todos os amigos silenciados
e, acima de tudo,
foi o cravo a desenhar os sonhos,
a erguer-se nas armas e nas mãos,
a tomar conta das veias das ruas,
a derramar-se num Tejo em maré alta,
a escapulir-se Atlântico afora,
Até sempre, até todos os dias por chegar!
E foi inevitável o vermelho
nos amanhãs desse dia
hoje naufragado em alheio mar,
despido de sonho, veias e vontade,
numa jangada incolor, de remos obedientes
a um leme que treme sob o olhar de uns tantos
Maria João Brito de Sousa
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QUE PENA! - Um poema anti-poético e egoísta, para quando fizer falta rosnar
Que pena!
Tenho tanta pena de ter pena
dos olhos de luar que não tiveste,
da refeição frugal que não fizemos
no tal dia em que não nos encontrámos…
Dessas mãos de sal que te não vi,
sublimando a saudade em gestação,
subiria – talvez…- o aceno prometido
... ou nem sequer esboçado, à luz de tão tardio.
Nos teus lábios que nunca experimentei
- porque não eram lábios
os riscos trémulos e desbotados
que jamais desenhámos
sobre a suspeição do beijo…-
um sorriso clonado
de todos os esgares que lhe foram anteriores
Que pena das horas que não passámos juntos
nessas manhãs…
essas que nos encerram
na urgência banal e rotineira
- tão desmesuradamente banal e rotineira! -
do desejo insuspeitável
que adivinho
no refrão de cada cantilena…
e das tardes,
quem sabe?
atarefadas, burguesas,
passeando entre o plano do fogão de quatro bicos
e a perpendicular do mar…
- desse mar que só pode ser olhado por um,
de cada vez… -
aborrecendo o momento seguinte,
barulhentas, conflituosas e – porque não?
tão iguais às que são “só dos outros”…
Mas pena,
pena a sério,
pena crua e inenarrável,
daquela que magoa,
rasga por dentro e deixa cicatriz…
Pena teria eu de não ser quem eu sou!
Maria João Brito de Sousa – 28.05.2011 -14.47h
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PRONTO-A-COMER
Quando o dedo do tédio
me aponta as entranhas das coisas vazias,
esquivo-me ao derradeiro anzol
e devoro poesia.
Há sempre uma vertigem
quando a refeição
é um vislumbre de saudade
que agarro, tempero
mordo e saboreio
em gestos competentes,
convergindo na degustação das rimas
tantas vezes bravas,
amargas e ásperas,
colhidas nas margens do acaso,
sem forma, sem textura,
a saltar da previsível marinada da reflexão
para a combustão inevitável
da mastigação do primeiro texto que me seduza
sobre a bandeja da fome imperativa
prato-poema
…ou rábula de um tédio
que nunca assombrará
as entranhas vazias
de uma saudade-coisa-aprisionada
por anzóis que a impedirão de ser provada
antes da assimilação do último dos versos
Maria João Brito de Sousa – 24.04.2011 – 17.48h
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SEM MEIAS TINTAS
Eram simpáticos,
medianamente simpáticos
nos seus cumprimentos
e nos seus sorrisos
mais ou menos artificiais,
mais ou menos impostos,
mais ou menos convenientes
Ele,
a partir desse dia,
aborrecera
flores, lacinhos, veludos e doirados…
aborrecera os meio-doces
rebuçados de hortelã-pimenta,
as meias-criações,
as meias-paixões,
as meias-convicções
e todas as meias-tintas
que perturbassem
o canto genuíno do melro,
o uivo do lobo absoluto,
o rosnido do lince interior
Sequóias!
Ainda se lhe dessem sequóias
de raiz presa à terra
como as vozes dos deuses menores…
Ainda se lhe dessem
esses arranha-céus de fibra e floema
que aspiram aos longes dos astros
mais ou menos longínquos
e lhe renovassem a promessa
de ascender com eles…
Mas tudo o que se lhe cumpria
eram aqueles meios sorrisos,
aqueles rictos e rituais
mais ou menos postiços
que afirmavam
agradar ao Deus sem tamanho
a quem atribuíam
todas as autoridades…
excepto a de aborrecer
as meias-genuinidades
Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h
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BREVES PEIXES DE ESCAMA CADUCA
Nós, os de olhos reclusos
Num infinito demarcado por metas,
Breves peixes de escama caduca
Na copa vítrea de um sonho qualquer,
Mordendo ilusões de um pomo menor,
Pontuamos, tão só, pela diferença
De impulsionar as barbatanas
Sabendo
Que poderíamos escapar
Mas que jamais o quereremos fazer sozinhos
Nos dias roubados às noites de insónia,
As coisas sésseis,
Que não mexem,
Nem deixam de mexer
- coisas sonhadas, de motilidade hipotética –
Impulsionam-nos mais e mais,
A nós,
Breves peixes de escama caduca
De olhos reclusos num infinito
Pré-determinado por um sonho
Que sabemos construido
Sobre cada uma
Das nossas escamas
Maria João Brito de Sousa – 31.03.2011 – 09.53h
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SEPARAÇÃO - em quatro andamentos
1 - Davam-se as mãos
E largavam-nas
Na impaciência de um gesto recorrente
2 - Voltavam a unir-se
Pontualmente
Na urgência de uma chama qualquer
E logo se desuniam
Como se ela os queimasse
3 - Cada vez mais recorrentemente
Se impacientavam
E as mãos desafiavam as leis da Matemática
Multiplicando-se em desuniões
Sem que chama alguma as tivesse unido
4 - Deixaram de unir as mãos
Quando perceberam
Que a chama apagada
Queimava mais ainda
E nenhuma impaciência sugeriu
Que pudesse acender-se de novo
Maria João – 05.03.2011 – 16.52h
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ESCOVO-ME...
Que hei-de fazer de mim?
Venho de um qualquer mundo
Que não consta
No Mapa Astral da humana inspiração
E cobre-me este pó de sonhos
Que tento
E não consigo escovar bem…
Talvez seja defeito da escova
Que engendrei,
À falta de melhor,
De uns restos
Da ansiedade que encontrei por aí
Pendendo
Como limos de um mar que nunca aceito
E amarrei
A um cabo de incertezas
Que perderam o prazo de validade…
Mas que me importa
A eficácia do artefacto
Se nem sequer vislumbro
A origem da poalha que me cobre?
E escovo, escovo, escovo, escovo…
Maria João – 05.03.2011 – 16.20h










