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TEMPO

Terça-feira, 15.01.19

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TEMPO

*



Tu dizes Eu

como quem bebe um copo de astros

e teces os corpos

nas arestas do dia a dia

com o pasmo e a leveza das mãos que não tens

*



Tu dizes Vida

como se ela estivesse ainda por nascer

e continuas a moldá-la

e a cobri-la

dos indispensáveis acessórios

das teias, dos fungos, dos dourados bolores

*



Tu passas

como se de todo não passasses

porque

 não tens memória

que, a essa, somos nós

nós bichos e sombras e plantas

e serenas pedras de todos os astros

que ta vamos tecendo

para que nela te possamos (re)conhecer

*



Maria João Brito de Sousa – 15.01.2019 – 12.43h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:36

EU DIGO, TU DIZES, ELE DIZ...

Terça-feira, 30.10.18

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EU DIGO, TU DIZES, ELE DIZ...

*



Diz um senhor dos jornais

(aos ais...)

que alguns intelectuais

nunca serviram pra mais

por não serem marginais.

*



Diz um senhor das revistas

(sem pistas...)

que os desgraçados artistas

foram sempre uns arrivistas

quase todos elitistas.

*



Digo eu

que sou poeta

que o senhor só diz é treta...

Forreta!

*



Maria João Brito de Sousa – 30.10.2018- 21.30h





 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 23:20

SEM MEIAS-TINTAS

Domingo, 20.05.18

 

Eram simpáticos

medianamente simpáticos

nos seus cumprimentos

e nos seus sorrisos

mais ou menos artificiais

mais ou menos impostos

mais ou menos convenientes

 

Ele

a partir desse dia

aborrecera

flores, lacinhos, veludos e doirados…

aborrecera os meio-doces

rebuçados de hortelã-pimenta

as meias-criações

as meias-paixões

as meias-convicções

e

todas as meias-tintas

que perturbassem

o canto genuíno do melro

o uivo do lobo absoluto

o rosnido do lince interior

 

Sequóias!

Ainda se lhe dessem sequóias

de raiz presa à terra

como as vozes dos deuses menores…

 

Ainda se lhe dessem

esses arranha-céus de fibra e floema

que aspiram aos longes dos astros

mais ou menos longínquos 

e lhe renovassem a promessa

de ascender com eles…

 

Mas tudo o que se lhe cumpria

eram aqueles meios sorrisos

aqueles rictos e rituais

mais ou menos postiços

que afirmavam

agradar ao Deus sem tamanho

a quem atribuíam

todas

todas as autoridades

 excepto a de aborrecer

as meias-genuinidades

 

 

                                                             Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:17

CADA POEMA

Sábado, 19.05.18

2016-04-08-parto-da-viola-bom-m-nage-1916 _ Amadeo

 

Cada poema
Tem asas de papel nascendo incertas
Como velas rumando à descoberta
Da Ilha de S. Nunca da partida

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

Onde um termina
Começa um outro verso inevitável
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida

Cada poema
Tem alma de mulher, corpo de chama
De aonde irrompe a voz que então proclama
O culminar da luz na pele rendida

Cada poema
É raiva, urgência, amor,
Silêncio, grito e voz da mesma dor
Numa explosão domada ou incontida

Cada poema
É mais do que uma inércia, é um transporte,
É eixo, é a matriz deste suporte
Das minhas transgressões de fera ferida

Cada poema
Tem sempre a dimensão de um corpo estranho,
Imensurável, que não tem tamanho,
Porta-voz de uma força indesmentida

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

Onde um termina
Começa um novo verso inevitável,
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida.

 

 



Maria João Brito de Sousa – 16.09.2010 – 14.38h

 

 Parto da Viola, Amadeo de Souza-Cardoso

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 20:00

PEQUENOS LUXOS

Terça-feira, 22.11.16

Pequenos luxos.jpg

 

Nenhum medo,

mas todas as formas de o negar

vinham bater-lhe à porta naquele dia

pintado de fresco.



Havia ainda

o pormenor rústico

da inesperada lata de grão-de-bico

que

(por mero acaso)

encontrara na despensa em desalinho

(e)

havia

o requintado rancho-fingido

que efectivamente fingira cozinhar

sobre a única boca do fogão desmantelado

(e)

havia

a gata,

bêbeda de sol,

espreguiçada nas lonjuras da marquise,

longe do desconsolado consolo dos livros cobertos de pó

(e)

havia

aquelas paredes transpiradas

que sempre vestira como a uma segunda pele

(pequenos luxos, enfim...)



O galope ritmado,

imparável,

do decassílabo heróico,

esse,

voltará



Nunca sabe quando,

mas sabe

que um dia voltará

grávido de som

pujante, indomável

a galgar as planícies de oiro do poema.



Não baterá à porta

nem se fará anunciar.

 

Jamais um galope selvagem

se poderia fazer anunciar.





Maria João Brito de Sousa - 22.11.2016 - 18.56h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:25

O TRAÇO E A CÔR

Quinta-feira, 29.09.16

a cor e o traço.jpg

 

O TRAÇO E A COR

*

 

Rabisco um traço breve

a verde-mar

no manto que me cobre

a cada inverno

como prece esboçada

ao deus solar

que ecoa no meu peito

ao som das veias

e se despede à pressa

ou devagar...



Como se tudo o que ergo

resistisse

à dor de um Tejo morto

e sem sereias

assim deixo morrer

não prolongando

pr`além do caos sereno dos sentidos

o verde-mar de um gesto a derramar-se

no declinante inverno dos meus traços



Maria João Brito de Sousa - 22.09. 2016 - 14.58h







 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:06

PRECISO DE NAVEGAR...

Segunda-feira, 29.08.16

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Ai que eu, agora,

Já nem sei meter travões

Tenho as rimas por paixões

Ouso versos compulsivos

 

Ai que eu, agora,

Nem sei se escrevo ou converso

Cabe-me a vida num verso

Não vendo pra tal motivos

 

E se isto fica

Para sempre a dar-me o mote

Não há motor nem há bote

Que me reconduza ao cais

Pois se isto fica

Será no mar deste mar

Que hei-de um dia naufragar,

Quando for tarde demais

 

Mas pouco importa

Naufragar se naveguei

Porque nele me aventurei

Se mais do que à vida o quis

 

Ah, pouco importa

Que o que importa é ter-se um rumo

Navegar provando o sumo

Que em nós há desde a raiz

 

Maria João Brito de Sousa - 29.08.2016 - 12.05h

 

(Imagem retirada da Web, via Google)

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:50

É DAQUI QUE TE ESCREVO...

Sexta-feira, 11.03.16

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É daqui que te escrevo

desta vontade que me veste de Abril

de poemas e de farrapos também

 

Daqui

de onde me reconheço em ti espelhada

embora o perfil simples do meu cravo

sem nome nem espinhos

e tão menos glorioso

pareça negar cada verso que nasce

 

Mas é daqui

deste lado aguerrido de mim

onde vestida de um Abril em farrapos

não dispo Abril apesar do despontar

desta resistência que te não sei explicar

mas presumo

ninguém imaginaria que florescesse ainda

 

Daqui

de onde também eu

aprendi a amar a solidão

e a recriar o mundo

na sombra das ausências

nos anos – tantos… -  do verde caule

de um mesmo sonho de pétalas ao rubro,

 

Daqui

e porque o poema me apeteceu

insurrecto e vermelho

este escrever-te sem rima nem medo

com as armas florindo num canto maior

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:23

PERCURSO

Quinta-feira, 14.01.16

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Venho de um mar mais distante

Do que as águas primitivas

Sou a memória do tempo

Que eoa nas catedrais

Das grutas intemporais

E das fusões permissivas

 

Vivi mil milhões de vidas

Morri outras tantas mortes

De tanto deitar as sortes

Cresceram-me asas por dentro

 

Que, por fora, sou segredo

Sou Anjo cristalizado

Na liquidez do futuro

(antes que ele seja passado)

 

Às vezes sou azarado,

Outras tantas tenho sorte

Sou

Do nascimento à morte

O perdido e o encontrado.

 

 

Maria João Brito de Sousa   (2008)

.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:41

FIGURA DE PROA (poema descritivo de um sonho real)

Segunda-feira, 21.12.15

Barcopapel.jpg

FIGURINHA DE PROA

 

Pinta-se o céu de negras aguarelas

Rasgam-no

De alto a baixo

Centelhas amarelas

E grita irada

A voz de algum trovão

 

Na praia choram

As mulheres dos pescadores

E

Sou

No sonho

A figura de proa

Da barca de insuspeitos pecadores

 

 

Eu

Que tenho medo

Dos líquidos abismos

E da dureza impenetrável dos rochedos

A condenar-me a morrer de mil medos

Num negro mar que me desconhecia

 

 

E

Do fundo do mar

Um deus rugia:

- Por mim não passarás impunemente!

Ergo a voz

Numa voz que lhe pedia:

- Salve-se, ao menos, a tripulação!

Reboa a  gargalhada em que o deus respondia:

 

- Quem és insignificante criatura

Que pedes por vidas que não são a tua?

 

- Sou quem da barca se fez capitão,

E por amor de quem nela labuta

Tomo-lhe o  leme nesta minha mão!

 

 

Neptuno troça

Mas abranda a fúria

Vulcano cala as vozes do trovão

E a Barca balança docemente

Como se o universo inteiro

De repente,

Se comovesse com tal devoção

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993 (?)

*

Nota - Poema reformulado a 21.12.2015

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:52








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