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SEM MEIAS-TINTAS

Domingo, 20.05.18

 

Eram simpáticos,

medianamente simpáticos

nos seus cumprimentos

e nos seus sorrisos

mais ou menos artificiais,

mais ou menos impostos,

mais ou menos convenientes

 

Ele,

a partir desse dia,

aborrecera

flores, lacinhos, veludos e doirados…

aborrecera os meio-doces

rebuçados de hortelã-pimenta,

as meias-criações,

as meias-paixões,

as meias-convicções

e todas as meias-tintas

que perturbassem

o canto genuíno do melro,

o uivo do lobo absoluto,

o rosnido do lince interior

 

Sequóias!

Ainda se lhe dessem sequóias

de raiz presa à terra

como as vozes dos deuses menores…

 

Ainda se lhe dessem

esses arranha-céus de fibra e floema

que aspiram aos longes dos astros

mais ou menos longínquos 

e lhe renovassem a promessa

de ascender com eles…

 

Mas tudo o que se lhe cumpria

eram aqueles meios sorrisos,

aqueles rictos e rituais

mais ou menos postiços

que afirmavam

agradar ao Deus sem tamanho

a quem atribuíam

todas,

todas as autoridades,

 excepto a de aborrecer

as meias-genuinidades

 

 

                                                             Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:17

CADA POEMA

Sábado, 19.05.18

2016-04-08-parto-da-viola-bom-m-nage-1916 _ Amadeo

 

Cada poema
Tem asas de papel nascendo incertas
Como velas rumando à descoberta
Da Ilha de S. Nunca da partida

Quando ressurge,
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

Onde um termina,
Começa um outro verso inevitável,
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida…

Cada poema
Tem alma de mulher, corpo de chama
De aonde irrompe a voz que então proclama
O culminar da luz na pele rendida

Cada poema
É raiva, urgência, amor,
Silêncio, grito e voz da mesma dor
Numa explosão domada ou incontida

Cada poema
É mais do que uma inércia, é um transporte,
É eixo, é a matriz deste suporte
Das minhas transgressões de fera ferida

Cada poema
Tem sempre a dimensão de um corpo estranho,
Imensurável, pois não tem tamanho,
Porta-voz de uma força indesmentida

Quando ressurge,
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

Onde um termina,
Começa um novo verso inevitável,
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida.

 

 



Maria João Brito de Sousa – 16.09.2010 – 14.38h

 

 Parto da Viola, Amadeo de Souza-Cardoso

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 20:00

PEQUENOS LUXOS

Terça-feira, 22.11.16

Pequenos luxos.jpg

 

Nenhum medo,

mas todas as formas de o negar

vinham bater-lhe à porta naquele dia

pintado de fresco.



Havia ainda

o pormenor rústico

da inesperada lata de grão-de-bico

que

(por mero acaso)

encontrara na despensa em desalinho

(e)

havia

o requintado rancho-fingido

que efectivamente fingira cozinhar

sobre a única boca do fogão desmantelado

(e)

havia

a gata,

bêbeda de sol,

espreguiçada nas lonjuras da marquise,

longe do desconsolado consolo dos livros cobertos de pó

(e)

havia

aquelas paredes transpiradas

que sempre vestira como a uma segunda pele

(pequenos luxos, enfim...)



O galope ritmado,

imparável,

do decassílabo heróico,

esse,

voltará



Nunca sabe quando,

mas sabe

que um dia voltará,

grávido de som,

pujante, indomável,

a galgar as planícies de oiro do poema.



Não baterá à porta,

nem se fará anunciar.

 

Jamais um galope selvagem

se poderia fazer anunciar.





Maria João Brito de Sousa - 22.11.2016 - 18.56h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:25

O TRAÇO E A CÔR

Quinta-feira, 29.09.16

a cor e o traço.jpg

Rabisco um traço breve

a verde-mar

no manto que me cobre

a cada inverno

como prece esboçada

ao deus solar

que ecoa no meu peito

ao som das veias

e se despede à pressa... ou devagar...



Como se tudo o que ergo

resistisse

à dor de um Tejo morto

e sem sereias,

assim deixo morrer,

não prolongando

pr`além do caos sereno dos sentidos,

o verde-mar de um gesto a derramar-se

no declinante inverno dos meus traços...



Maria João Brito de Sousa - 22.09. 2016 - 14.58h







 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:06

PRECISO DE NAVEGAR...

Segunda-feira, 29.08.16

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Ai que eu, agora,

Já nem sei meter travões,

Tenho as rimas por paixões,

Ouso versos compulsivos,

Ai que eu, agora,

Nem sei se escrevo ou converso,

Cabe-me a vida num verso,

Não vendo, p`ra tal, motivos

 

E se isto fica

Para sempre a dar-me o mote,

Não há motor, nem há bote,

Que me reconduza ao cais,

Pois se isto fica

Será no mar deste mar

Que hei-de, um dia, naufragar,

Quando for tarde demais,

 

Mas pouco importa

Naufragar, se naveguei

Porque nel` me aventurei,

Se mais do que à vida o quis,

Mas pouco importa,

Se o que importa é ter-se um rumo,

Navegar, provando o sumo

Que em nós há, desde a raiz...

 

Maria João Brito de Sousa - 29.08.2016 - 12.05h

 

(Imagem retirada da Web, via Google)

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:50

É DAQUI QUE TE ESCREVO...

Sexta-feira, 11.03.16

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É daqui que te escrevo,

desta vontade que me veste de Abril,

de poemas e de farrapos também,

 

Daqui,

de onde me reconheço em ti espelhada

embora o perfil simples do meu cravo

sem nome, sem espinhos

e tão menos glorioso,

pareça negar cada verso que nasce…

 

Mas é daqui,

deste lado aguerrido de mim

onde vestida de um Abril em farrapos,

não dispo Abril apesar do despontar

desta resistência que te não sei explicar

mas, presumo,

ninguém imaginaria que florescesse ainda…

 

Daqui,

de onde também eu

aprendi a amar a solidão

e a recriar o mundo

na sombra das ausências,

nos anos – tantos… -  do verde caule

de um mesmo sonho de pétalas ao rubro,

 

Daqui

e porque o poema me apeteceu,

insurrecto e vermelho,

este escrever-te sem rima, nem medo,

com as armas florindo num canto maior...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:23

PERCURSO

Quinta-feira, 14.01.16

digitalizar0020.jpg

Venho de um mar mais distante

Do que as águas primitivas

Sou a memória do tempo

Que eoa nas catedrais

Das grutas intemporais

E das fusões permissivas...

 

Vivi mil milhões de vidas,

Morri outras tantas mortes,

De tanto deitar as sortes

Cresceram-me asas por dentro

 

Que, por fora, sou segredo,

Sou Anjo cristalizado

Na liquidez do futuro

(antes que ele seja passado...)

 

Às vezes sou azarado,

Outras tantas tenho sorte...

Sou, do nascimento à morte,

O perdido e o encontrado.

 

 

Maria João Brito de Sousa   (2008)

.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:41

FIGURA DE PROA (poema descritivo de um sonho real)

Segunda-feira, 21.12.15

Barcopapel.jpg

Pinta-se o céu de negras aguarelas;

Rasgam-no, de alto a baixo,

Centelhas amarelas

E grita irada, a voz de algum trovão.

 

Na praia choram

As mulheres dos pescadores

E sou, no sonho, a Figura de Proa

da barca de insuspeitos pecadores...

 

 

Eu, que tenho medo

Dos líquidos abismos

E da dureza impenetrável dos rochedos,

A condenar-me a morrer de mil medos

Num negro mar que me desconhecia...

 

 

E, do fundo do mar, um deus rugia:

- Por mim não passarás impunemente!

Mas oiço a minha voz que lhe pedia:

- Salve-se, ao menos, a tripulação!

Reboa a  gargalhada em que o deus respondia:

 

- Quem és, insignificante criatura,

Que prezas vida que não seja a tua?

 

- Sou quem da barca se fez capitão,

E, por amor de quem nela labuta,

Tomo o seu leme nesta minha mão!

 

 

Neptuno troça, mas abranda a fúria,

Vulcano cala as vozes do trovão

E a Barca, então, balança, docemente,

Como se o Universo inteiro, de repente,

Se comovesse com tal devoção...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993 (?)

 

Nota - Poema reformulado a 21.12.2015

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:52

EXECUÇÃO

Segunda-feira, 21.12.15

images (33).jpg

 

Naquele instante

As rosas multiplicaram-se

Em negros abraços

E os trinta e três

Melros-Azuis

Que moravam

No jardim da guerra pontual

Desdobraram-se em trinados

Que soavam,

Ao longe,

Como o assobio

Das balas perdidas no muro

A que ela,

De olhos (des)vendados,

Apoiara o corpo (ainda) vertical.

 

 

Maria João Brito de Sousa - 2008

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:39

POST SCRIPTUM

Segunda-feira, 30.11.15

seixo rolado.jpg

 

Poderia,

claro que poderia

conceder-me,

de quando em quando,

a textura suavíssima da seda,

o rebuscado colorido da cauda do pavão,

o verso liquefeito nos preciosíssimos licores

que nunca chegam

aos lábios de quem moireja a terra

onde o chão pouco mais oferece

do que a haste sequiosa

das altivas torgas...

 

Poderia,

poderia sim,

procurar na gratificação pessoal

a doçura anestésica do ópio,

o requinte da fragância mais rara,

o aplauso ocasional e gratuito,

o beijo fácil da simpatia caritativa,

o brilho do néon

que ofusca a borboleta

e invariavelmente queima

quantas asas germinem nos casulos...

 

Poderia,

sei que poderia,

adornar-me de pérolas, topázios e diamantes,

 

Mas...

por que o faria

quando um seixo rolado

se me afigura infinitamente mais belo?

 

Post scriptum;

 

Quem me compra

este dilúvio de (in)certezas

por um punhado de versos rolados?

 



Maria João Brito de Sousa - 30.11.2015 17.17h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:36








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