Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


VEM!

Sexta-feira, 05.03.21

VEM.jpg

 

VEM!

*

 

Vem,

porque a jangada

em que hoje moro,

é tua

e dentro dela a gente alcança a lua

sempre que a lua vem beijar o mar.

*

Vem,

traz os teus remos,

traz as tuas asas,

vamos encher todas as marés-vazas

da poesia que a gente inventar
*


Vem,

semear espantos,

povoar as águas

até (des)afogar as velhas mágoas

na embriaguez do sonho por sonhar
*


Vem,

que a geometria

deste nosso abraço

vai desabar nos braços do sargaço

no qual, felizes, vamos naufragar...
*

 

 

Maria João Brito de Sousa - 04.03.2021 - 14.50h

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por Maria João Brito de Sousa às 08:45

ALÍNEA M

Segunda-feira, 05.10.20

al´nea M.jpg

Alínea M

*


Confusa,

julgo ter acordado

ao lado de uma Natália

ainda  incompletamente diluída

no esquecimento de um qualquer sonho

que me não recordo de ter sonhado

*

Só essa estranha sensação,

mais do que memória

mas ainda distante do palpável

teima em reocupar um lugar

num tempo e num espaço

a que há muito deixou de pertencer.

*


Agora debruço-me da janela,

creio ver decompor-se o mito de Medeia

na terra adubada da floreira do vizinho

e não, não posso jurar que esteja acordada,

Tudo se me enevoa diante dos olhos.
*

 

Piso finalmente o chão

e ergo-me do sonho

depois de despidas as ilusões.

*

Nenhum ouro,

nem sombra de alquimia;

Medo não nasceria dessa matinal estranheza.
*

 


Maria João Brito de Sousa - Outubro, 2020

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:02

TEMPO

Terça-feira, 15.01.19

galapagos.jpg

TEMPO

*

Tu dizes Eu

como quem bebe um copo de astros

e teces os corpos

nas arestas das horas

com

o pasmo e a leveza

das mãos que não tens

*

Tu dizes Vida

como se ela estivesse ainda por nascer

não páras de moldá-la

e

de cobri-la

dos indispensáveis acessórios

das teias e fungos e limos e dourados bolores

*

Tu passas

como se de todo não passasses

porque

 não tens memória

que,

a essa,

somos nós

nós

bichos e sombras e plantas

e

serenas pedras de todos as escarpas

que ta vamos tecendo

para que

nela

te possamos (re)conhecer

*



Maria João Brito de Sousa – 15.01.2019 – 12.43h

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:36

EU DIGO, TU DIZES, ELE DIZ...

Terça-feira, 30.10.18

redacao-jornalistica.gif

 

EU DIGO, TU DIZES, ELE DIZ...

*



Diz um senhor dos jornais

(aos ais...)

que alguns intelectuais

nunca serviram pra mais

por não serem marginais.

*



Diz um senhor das revistas

(sem pistas...)

que os desgraçados artistas

foram sempre uns arrivistas

quase todos elitistas.

*



Digo eu

que sou poeta

que o senhor só diz é treta...

Forreta!

*



Maria João Brito de Sousa – 30.10.2018- 21.30h





 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 23:20

SEM MEIAS-TINTAS

Domingo, 20.05.18

 

Eram simpáticos

medianamente simpáticos

nos seus cumprimentos

e nos seus sorrisos

mais ou menos artificiais

mais ou menos impostos

mais ou menos convenientes

 

Ele

a partir desse dia

aborrecera

flores, lacinhos, veludos e doirados…

aborrecera os meio-doces

rebuçados de hortelã-pimenta

as meias-criações

as meias-paixões

as meias-convicções

e

todas as meias-tintas

que perturbassem

o canto genuíno do melro

o uivo do lobo absoluto

o rosnido do lince interior

 

Sequóias!

Ainda se lhe dessem sequóias

de raiz presa à terra

como as vozes dos deuses menores…

 

Ainda se lhe dessem

esses arranha-céus de fibra e floema

que aspiram aos longes dos astros

mais ou menos longínquos 

e lhe renovassem a promessa

de ascender com eles…

 

Mas tudo o que se lhe cumpria

eram aqueles meios sorrisos

aqueles rictos e rituais

mais ou menos postiços

que afirmavam

agradar ao Deus sem tamanho

a quem atribuíam

todas

todas as autoridades

 excepto a de aborrecer

as meias-genuinidades.

*

Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:17

CADA POEMA

Sábado, 19.05.18

2016-04-08-parto-da-viola-bom-m-nage-1916 _ Amadeo

CADA POEMA

Cada poema
Tem asas de papel nascendo incertas
Como velas rumando à descoberta
Da Ilha de S. Nunca da partida

*

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

*

Onde um termina
Começa um outro verso inevitável
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida

*

Cada poema
Tem alma de mulher, corpo de chama
De onde irrompe uma voz que então proclama
O culminar da luz na pele rendida

*

Cada poema
É raiva, urgência, amor,
Silêncio, grito e voz da mesma dor
Numa explosão domada ou incontida

*

Cada poema
É mais do que uma inércia ou um transporte,
É eixo, é a matriz deste suporte
Das minhas transgressões de fera ferida

*

Cada poema
Tem sempre a dimensão de um corpo estranho,
Imensurável, pois não tem tamanho,
Porta-voz de uma força indesmentida

*

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida

*

Onde um termina
Começa um novo verso inevitável,
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida.

*

 

 



Maria João Brito de Sousa – 16.09.2010 – 14.38h

 

 Parto da Viola, Amadeo de Souza-Cardoso

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 20:00

PEQUENOS LUXOS

Terça-feira, 22.11.16

Pequenos luxos.jpg

PEQUENOS LUXOS

*

Nenhum medo,

conquanto

todas as formas de o negar

viessem bater-lhe à porta naquele dia

pintado de fresco...

*

Era

o pormenor rústico

da inesperada lata de grão-de-bico

que

(por mero acaso)

encontrara na despensa em desalinho

(e)

ainda

o requintado rancho-fingido

que

efectivamente fingira cozinhar

sobre a única boca do fogão desmantelado

(e)

era

a gata,

bêbeda de sol,

espreguiçada nas lonjuras da marquise,

longe do desconsolado consolo

dos livros cobertos de pó

(e )

as paredes desbotadas

que sempre a haviam vestido

como uma segunda pele

(...)

O galope ritmado,

imparável,

do decassílabo heróico,

esse,

um dia voltará

*

 

Não sabe quando,

mas sabe

que um dia retornará

grávido de som

pujante, indomável

a galgar as planícies de oiro do poema

*

Não baterá à porta

nem se fará anunciar

porque

jamais um galope selvagem

 poderia fazer-se anunciar

(pequenos luxos de poeta. Enfim...)

*



Maria João Brito de Sousa - 22.11.2016 - 18.56h

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:25

O TRAÇO E A CÔR

Quinta-feira, 29.09.16

a cor e o traço.jpg

 

O TRAÇO E A COR

*

 

Rabisco um traço breve

a verde-mar

no manto que me cobre

a cada inverno

como prece esboçada

ao deus solar

que ecoa no meu peito

ao som das veias

e se despede à pressa,

ou devagar...

*



Como se tudo o que ergo

resistisse

à dor de um Tejo morto

e sem sereias

assim deixo morrer

não prolongando

pr`além do caos sereno dos sentidos

o verde-mar de um gesto

a derramar-se

no declinado inverno dos meus braços

*

Maria João Brito de Sousa - 22.09. 2016 - 14.58h







 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:06

PRECISO DE NAVEGAR...

Segunda-feira, 29.08.16

 

 

Ai que eu, agora,

Já nem sei meter travões

Tenho as rimas por paixões

Ouso versos compulsivos

 

Ai que eu, agora,

Nem sei se escrevo ou converso

Cabe-me a vida num verso

Não vendo pra tal motivos

 

E se isto fica

Para sempre a dar-me o mote

Não há motor nem há bote

Que me reconduza ao cais

Pois se isto fica

Será no mar deste mar

Que hei-de um dia naufragar,

Quando for tarde demais

 

Mas pouco importa

Naufragar se naveguei

Porque nele me aventurei

Se mais do que à vida o quis

 

Ah, pouco importa

Que o que importa é ter-se um rumo

Navegar provando o sumo

Que em nós há desde a raiz

 

Maria João Brito de Sousa - 29.08.2016 - 12.05h

 

(Imagem retirada da Web, via Google)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:50

É DAQUI QUE TE ESCREVO...

Sexta-feira, 11.03.16

É DAQUI QUE TE ESCREVO

*

 

É daqui que te escrevo,

desta vontade que me veste de Abril

de poemas e de trapos, também

 *

Daqui,

de onde me reconheço em ti espelhada

embora o perfil simples do meu cravo

sem nome nem espinhos

e

tão menos glorioso

pareça vergar-se a cada verso que canta

*

 

Mas é daqui,

deste lado aguerrido de mim

onde vestida de um Abril em farrapos

não dispo Abril

apesar do despontar

duma resistência que te não sei explicar

mas presumo que

ninguém imaginaria florescendo ainda

*

 

Daqui,

de onde também eu

aprendi a amar a solidão

e

a recriar o mundo

na sombra da ausência

dos anos – tantos… -  do verde caule

de um mesmo sonho de pétalas ao rubro

*

 

Daqui

e

porque o poema me apeteceu

insurrecto e vermelho

este escrever-te

sem rima nem medo

com as armas florindo num canto maior

 *

 

Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h

*

 A um camarada que ainda estava entre nós 

no ano de 2011

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:23








comentários recentes




subscrever feeds