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HORAS ANTIGAS

Sexta-feira, 31.07.09

Sobravam-lhe as horas

Na eternidade do reflexo

Em indesmentível declínio.

 

Ali, onde os espelhos

Nasciam dos vidros das montras

E das poças de água nas calçadas

Descalças de sonhos,

Sobravam-lhe luas e amantes

Nos ambíguos desamores

De cada fim de tarde.

 

Amanhã seria tempo

De sobrarem mais rugas de expressão

Na expressão de todas as horas.

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:54

QUASE, QUASE...

Segunda-feira, 27.07.09

Sobrevoam-se passeios e canteiros,

A alma a diluir-se,

De partida, por entre pedras, caules e outras gentes.

Alheia. Cada vez mais,

Quase, quase a terminar ali,

Onde os longes se fundem em nós,

Onde as ausências são omnipresentes.

 

Ali, onde quase, quase,

Se destilam sensações,

Onde quase, quase se sente a partida

Como se alguma coisa se pudesse ainda sentir,

Naqueles canteiros húmidos de indecisão…

 

Se se pudesse sentir,

Não estaríamos quase, quase de partida

Porque onde a partida quase, quase se sente,

Já tudo o mais deixou de ser sentido.

Ou quase, quase…

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:08

RESQUÍCIOS

Sexta-feira, 24.07.09

Invade, à noite, o palco dos sentidos

Uma memória turva e pendular.

Exumam-se palavras que sorriem

Na aridez de todos os passados

E silencia-se o sabor neutro

De um presente que desliza

Mais ou menos suavemente,

Conforme o sal do momento.

 

Cai o pano sobre as pálpebras do sonho

Assim que a lucidez exige o disparo das mãos.

Urbano, o Homem percorre as calçadas

De um tempo ainda insurrecto e mal adivinhado.

 

Como querias tu que eu te falasse

Dos passados que me foram subtraídos

Pela monotonia das horas previsíveis?

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:13

REALIDADE E REPRESENTAÇÃO

Quarta-feira, 22.07.09

Calcula-se no centro,

Traçado a compasso ou fio-de-prumo

Sobre o imenso planeta da sua indecisão.

 

Sente-se ali, no âmago

De todas as coisas perceptíveis.

 

Além, a vida continua,

Descontinuamente paradoxal,

Comandando cada caos a toque de sinapses,

Carbono e enxofre primário

No recomeço de cada concepção lunar.

 

A “cosa” tocada

- não a sua representação! –

Permanece e cala mais fundo.

 

Ah! A metafísica importância dos sentidos…

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:07

SÓ POR ISTO...

Terça-feira, 21.07.09

 

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 Só por lhes ter tapado os ouvidos

Como se a guerra tivesse acabado de morrer

 

E  ter seguido na perpendicular da minha sombra,

 

 

Só por este empeno de nunca ter tempo,

De ter uma vontade cujo leme encravou,

Cuja âncora ousei desprezar

Nos longes de um oceano de poemas,

 

Só por este medo de nunca ter medo,

Este (não) querer repousar na solidão de mim

Nas águas baptismais de um mar

Que ninguém ainda descobriu,

 

Só por esta trajectória espiralada

- de fora para dentro... -

Onde o tempo se projecta

Nas infinitudes da paz centrifugada

E nos cúmulos luminosos

Das nuvens do pensar,

 

Só por este morrer e acordar,

Acordar e morrer sem nunca saber

- de absoluta certeza, rigorosa

e cientificamente comprovada... -

Se as fronteiras se medem na solidez dos ossos

E na largura das carnes,

Ou na profundidade de um olhar

que (nem) todos entendem estar perdido...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 21.07.2009

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:33

MISTÉRIOS DE CANETA

Segunda-feira, 13.07.09

Nos cabelos das ondas,

Nos lençóis de areia,

Nas luas de papel

Que os dedos das horas

Recortaram, sem saber,

Nas estrelas que a maré semeia

De infinitos tentáculos,

Aí, percorridos os minutos, um a um,

Cristalizam-se os mistérios improváveis

De cada paixão por conceber

E nenhum sonho aceita os impossíveis.

 

A caneta, rolando,

Absolve a inevitabilidade de todas as mortes.

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:48

DESCAMINHOS

Sexta-feira, 10.07.09

Depois de perdido

No labirinto dos olhares do mundo,

Arrancado aos eixos de um tempo linear,

Afogado nas horas disfarçadas de azul-celeste...

 

Depois de devidamente

Arrancadas as raízes,

Podados os ramos do sentir,

Colhidos os frutos que podiam ser úteis,

Apontaram-lhe

O caminho politicamente correcto

Na direcção do cativeiro travestido de sorrisos.

 

Nesse mesmo dia,

Desenraizado,

Despojado de frutos,

Despido de sonhos,

Amputado de afectos

E devidamente encaminhado...

 

 

Aprendeu a voar por dentro.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:58

O CORVO SEM NINHO

Quinta-feira, 02.07.09

 

Negro, negro,

Urbano entre ciprestes,

Derrama um chamamento imperativo

O corvo que hoje vi na capelinha.

 

Só. Tão só, o negro corvo

E eu tão recheada de ninhos, de caruma...

 

Ali se desenhava em contraluz,

Negro e magnífico,

Sem rasto de ninho,

Vestígios de raiz,

Ali, onde eu acabara de lançá-las

No solo em que me reinvento a cada meio-dia...




Maria João Brito de Sousa

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:11








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