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QUE PENA! - Um poema anti-poético e egoísta, para quando fizer falta rosnar

Segunda-feira, 30.05.11

 

Que pena!

Tenho tanta pena de ter pena

dos olhos de luar que não tiveste,

da refeição frugal que não fizemos

no tal dia em que não nos encontrámos

 

Dessas mãos de sal que te não vi,

sublimando a saudade em gestação,

subiria – talvez…-  o aceno prometido

ou nem sequer esboçado, à força de tardio

 

Nos teus lábios que nunca experimentei

- porque não eram lábios

os riscos trémulos e desbotados

que jamais desenhámos

sobre a suspeição do beijo…-

um sorriso clonado

de todos os esgares que lhe foram anteriores

 

 

Que pena das horas que não passámos juntos

nessas manhãs,

essas que nos encerram

na urgência banal e rotineira

- tão desmesuradamente banal e rotineira! -

do desejo insuspeito

que adivinho

no refrão de cada cantilena

e das tardes,

- quem sabe? -

atarefadas, urbanas, burguesas,

passeando entre o plano do fogão de quatro bicos

 e a perpendicular do mar

 - desse mar que só pode ser olhado por um de cada vez -

aborrecendo o momento seguinte,

barulhentas, conflituosas e – porque não? -

tão exactamente iguais às tardes que são as dos outros

 

Mas pena,

pena a sério,

pena crua e inenarrável,

daquela que magoa,

rasga por dentro e deixa cicatriz,

 

Pena teria eu de não ter podido ser quem sou!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 28.05.2011 -14.47h

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:18








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