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PAI, NÃO TE JURO...

Segunda-feira, 19.03.12

Não te juro, pai

- já por cá não estás,

já te não lembras… -

mas acredito que as  mãos,

as tuas mãos,

voavam tanto como os seres alados

e que era delas que as histórias fluíam,

que era através delas que me falavas

quando eu te ouvia, inteira,

como ouvem as flores, os gatos

e as figurinhas de porcelana

com que mãe decorava as estantes dos teus livros

 

que espécie de alquimia

me transformava assim,

 já te  não sei dizer

e, repito, não te juro…

talvez a memória brinque comigo

ou os anos me pesem

mesmo quando me não doem assim, tanto,

mas quase, quase te garantiria

- pudesses tu ouvir-me… -

que era inteiramente,

como estátua de pedra que ousasse ter coração,

que ouvia as tuas mãos,

as tuas mãos eternas que  nunca se calavam

 

qualquer dia,

não mais

evocarei a voz das tuas mãos

longas, longas sobre as páginas do livro,

moldando palavras, fazendo desabrochar imagens

que só completa poderia ouvir

 

por isso, pai,

contradizendo-me,

tão inteira como então,

assumo as tais saudades que nunca soube sentir

e ouço,

estátua, flor, figurinha de louça

ou gato adormecido,

as tuas mãos,

perfeita e eternamente as tuas mãos

nestas palavras que escrevo só para ti

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.03.2012 – 11.38h

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:39








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