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ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU...

Sexta-feira, 21.03.14

Não era a minha face

que via nesse espelho...

era a de uma outra Alice

no país dos pesadelos

- a que se transmutava

ao sabor dos cogumelos

e sabia dar corda

ao relógio do coelho... -,

Não era a minha face, com certeza!

 

Era,

talvez,

a da Menina-do-Capuz-Vermelho

apaixonada por um lobo velho,

fugindo com ele do caçador malvado

- a avozinha

comprava os bolos no supermercado

e

todos os dias

dançava rock and roll na penumbra do quarto -...

 

 

da Bela-Adormecida

que nunca mais conseguia adormecer

e se deitava a escrever

cartas de jogo à Bruxa-Arrependida...

 

 

 

da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões

devorando maçãs-desencantadas,

tentando acreditar

que nem tudo são desilusões...

 

 

da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal

a vir da discoteca às cinco e tal...

 

 

do Pinóquio,

sorrindo , no ventre da baleia,

 

 

 

ou

- quem  o sabe? - da Pequena-Sereia,

mas nunca a minha face!

 

Não era a minha face verdadeira!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1992/3

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:01

HERANÇA

Segunda-feira, 17.03.14

Avô,

Porque me deixaste

Tanto tempo antes de partir de verdade?

 

Nenhum de nós tinha na mão a tua sorte

E se algum dia te desejei a morte

Foi para te libertar duma vida estagnada,

Para que procurasses a Sereia Encantada,

O Anjo Azul que te convidou para jantar,

A Ilha Deserta que, enquanto vivo, não pudeste encontrar…

 

Dos piratas malaios com quem brincavas

Em menino

Deixaste-me a cor da pele,

O negro dos cabelos

E o longo olhar felino…

 

Sempre que embarco na tua Jangada de Luar,

Oiço as ondas que me pedem contas

Das tuas rimas vivas como o mar,

Desses teus versos líquidos, salgados

E

Só sei responder-lhes

Que te vi partir de olhos fechados

Que, de ti,

Só sobraram

Os meus pobres poemas naufragados

Numa praia de areia calcinada

Onde me encontro com os mortos que voltaram

Pr`a virem perguntar-me da tua morada…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1992

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 21:11

ARBITRARIEDADE

Domingo, 16.03.14

 

 

Era uma mulher traçada a fio de prumo,

vinda dos tempos primevos do homem-vertical.

 

Dia a dia,

percorria o rumo

que fazia do dia vindouro

um dia insuportavelmente sempre igual...

 

era de noite que brincava aos fantasmas,

na infusão dos incontáveis ectoplasmas

das almas que foram e das que estão por vir

 

por isso,

acordava anoitecida

sem nunca estar segura

de ter acordado do lado de cá da vida.

 

Ora sonhava sonhos,

acordada,

ora cantava, estando adormecida

e o que doía

era viver multiplicada

onde todos a pediam dividida...

 

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:29

A CHUVA E O GATO NEGRO - 1958

Sábado, 15.03.14

 

É meia noite
Que ninguém se afoite a ir à janela!

 

A chuva cai, cai
E ai dela...

 

A chuva cai, cai
E vai perder-se no telhado
Onde morava o gato negro e esfomeado...

 

A chuva cai
Em pingos amargos e de dor
E tudo molha, e tudo estraga ao seu redor...

 

A chuva cai
E o velho gato negro esfomeado
Cai morto no telhado...

 

Mas eis que o dia chega
E tu, ó noite, vais
E o velho gato negro vai pr`ó céu dos animais...

 

Agora a chuva já não cai...
E o velho gato negro?

 


Já não se ouve o seu miar
Porque o velho e negro gato
Já tem onde morar.

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1959 (sete anos)

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 13:20

NÃO ACREDITO!

Terça-feira, 11.03.14

 

 

Não acredito,

mas sei,

que há almas transparentes como o ar,

que há sereias e tritões

no mais profundo do mar

e que as fadas,

às vezes,

me vêm visitar...

 

Não acredito,

mas sei,

que a morte é uma fronteira

e,

logo a seguir a ela,

mora a vida derradeira...

 

Não acredito,

mas sei,

que há bruxas, gnomos, duendes,

que vêm repreender-me

por viver tão alheada

dessa realidade alada, virtual, imaginada,

mas que está sempre presente...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1992

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:43

POEMA A UMA RESISTÊNCIA PESSOAL

Terça-feira, 11.03.14

 

… e, às vezes,

tantas vezes de aço vivo,

esta dureza vítrea em que me embrulho,

este trajar de fraga

de alto a baixo,

este mergulho em mim

negando laços

e este dizer que não quase a rugir…

 

um dia

- um qualquer, eu sei lá quando… -,

o bicho em mim acordará estremunhado,

esquecido da espada e da armadura,

e refar-se-á nos sorrisos e abraços

que hoje não toleraria

 

Porque

só assim uma vida se cumpre,

o sol brilhará quando for tempo disso

e o corpo aprenderá a tolerar tanta invernia

 

Até lá, porém,

a luta continua

e, de alguma estranha forma,  

os órgãos, um a um, persistem

nesta estranha/inaudível surdina

onde nem um pretenso mago cairia

na absurda tentativa/tentação de adivinhar

que rumo, que áspera textura ou qual a dimensão

da densa/dura crosta que todos os golpes pressupõem

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 27.12.2013 – 18.15h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 13:40








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