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ONDE E QUANDO AS MÃOS ME MORREREM

Quarta-feira, 16.06.10

 

Onde as mãos me morrerem

Só aí

Saberei das lonjuras dos destinos

E ressuscitarão os malmequeres

Que um dia eu plantei já nem sei onde

 

Quando as mãos me morrerem

Só então

Terei feito sentido

Entre as flores ressuscitadas

Que as mãos ainda vivas semearam

 

Ao longe,

As hastes metálicas dos postes

Explodirão

Ao cair da noite

Em deslumbrados pomos de luz

E outras mãos despontarão

No espaço-tempo dos novos malmequeres

 

Onde e quando,

Iluminadas,

As mãos me morrerem

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:26

NÃO VÁ SER TARDE...

Segunda-feira, 26.04.10

Queixo-me destas mãos

que se me colam

às folhas de papel

dos dias neutros

 

quantos dias, porém,

me serão neutros

se as folhas de papel

se me colarem às mãos?

 

Subo ao telhado

da nova contradição

vestindo as penas brancas

de um segredo

e rio-me dos fios de prata que correm

nas caleiras de um medo desconhecido

 

depois torno a queixar-me

das mãos neutras

coladas ao papel dos dias

dou um salto

em forma de metáfora 

e pouso suavemente

na superfície desta enchente de mim

 

Lembro as fábulas

que os deuses me contavam

no tempo em que o homem dominava a terra

e as cidades cresciam como cogumelos

 

então, encosto-me

à metade verde dos anjos

não vá,

de repente,

ser tarde demais para renascer

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:39

PALAVRAS

Sábado, 27.02.10

 

 

 

Vive o teu silêncio

à flor do que não esqueces,

dizia-me.

 

Eu sabia

das coisas por detrás das palavras

e sorria-lhe de dentro das letras que vestia de negro.

 

De todas as palavras

que jamais nasceram

só as do papel me sabiam a verdades.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 23:00

NOS DEDOS DO VENTO

Sexta-feira, 26.02.10

Vêm duras e ásperas

Nos dedos do vento

Quando o vento se esquece de nos vir beijar.

 

Vêm desmentindo

A improbabilidade da violência

E renascem de encontros ficcionados

No vértice das almas.

 

Vêm pontualmente cruas,

Inevitavelmente rígidas,

Chicotear a saliva dos beijos adiados.

 

Mas vêm

E morrem de seguida

Onde a vontade derruba

A mais perfeita das sincronias.

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 09:00

FALA COMIGO DEPOIS DO ESQUECIMENTO

Quinta-feira, 25.02.10

Quando as noites se encherem

Dos veludos da lua,

Fala-me então dos líquidos abismos…

 

Conta-me

Da sonoridade de todos os silêncios,

Das tonalidades da escuridão,

Do pressuposto precipício

Escavado no final de cada palavra.

 

Diz-me

Do cheiro vislumbrado nas asas dos anjos,

Do sabor dos ecos mais prolongados,

Do toque sedoso de uma abstracção…

 

Fala-me então

Mas deixa que me esqueça

Antes que as noites se encham dos veludo da lua

E os líquidos abismos

Derrubem o que resta da minha vontade. 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 09:00

AS ASAS DOS PÁSSAROS INVISÍVEIS

Quarta-feira, 24.02.10

De vez em quando

Descobrimos que as coisas nos descobrem

E que as descobertas

Cabem no punho fechado dos meninos

Acabados de parir.

 

De quando em vez

Descobrimos que a vida tem sabores

Iguaizinhos aos dos gelados

Da nossa infância

Acabada de revisitar

 

Porque todos os dias

Há pássaros de asas invisíveis

Que vêm contemplar-nos o sono

E adormecem nas esquinas

De um pesadelo que não chega a nascer.

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 09:00

UMA MORADA POR DETRÁS DO ESPELHO

Terça-feira, 23.02.10

 

Quase todos os homens têm

Uma morada por detrás de um espelho.

 

Nem todos se aventuram

A pernoitar nela,

Mas todos a construíram

Com maior ou menor

Grau de esforço e consciência.

 

Quando a tormenta

Abala a morada visível,

A maioria refugia-se

Na casa que o espelho protege

Embora

Em quase todos os casos

O espelho reflicta a própria tormenta…

 

Noutros, porém, a tormenta

Nunca chega a atingir

A superfície de quase todos os homens

Que se aventuram a reflectir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 09:00

AB INITIO III

Segunda-feira, 22.02.10

 

GALERIA_gatos_cat-9.jpg

 

 

Há muitas ruas atrás,

Quando o tempo não decorara ainda

O nome de todas as coisas

E era demasiado cedo

Para que os beijos mordessem

A periferia dos corpos maduros e acesos,

 

 

Havia botões de rosa a despontar 

Nas estrelas mais longínquas

E as florestas proliferavam

dentro dos corações dos elfos...

 

 

Antes disso,

 

Apenas meia dúzia de sementes

Despontavam teimosas do caos

Que prenuncia o começo

De toda a criação...

 

Maria João Brito de Sousa - 22.02.2010

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 10:33

A TORRE DE TODOS OS PRETÉRITOS

Quarta-feira, 27.01.10

 

Azulejo Caravelas.jpg

 

 

Ontem,

O bichinho azul

Que todos os dias caminha a meu lado,

Subiu,

Comigo,

À Torre de Todos os Pretéritos.

 

Longe,

Muito além do vislumbrável

Por qualquer bichinho

De qualquer cor,

Uma nódoa vermelha,

Viva e crescente,

Manchava, ainda, a linha do horizonte.

 

Ontem,

Eu,

Que todos os dias

Caminho lado a lado com um bichinho azul,

Desci,

Sozinha,

A Torre de Todos os Pretéritos...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 27.01.2010 - 11.51h

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:51

NO MAR

Quarta-feira, 13.01.10

Onde as algas se despem das areias

E a onda adentra,

Numa vergastada,

A rocha inesperadamente negra,

Onde se perdem os últimos raios de sol,

Para quem que passa na estrada

E neles repara.

 

Vem o sal beijar-nos

Numa raiva de pérolas esparsas

Que o vento açoita

Ainda depois de o dia se ter deitado....

 

 

- Cheguei! Cheguei!, avisa o temporal...

 

Todos os anos o mar se faz Inverno,

Todos os anos alguém dará por isso

E terá saudades

Das algas que se despediram no ano anterior...

 

Depois virão mais marés,

Mais marinheiros,

Virão ondas,

Mil ondas babando-se de fúria

No recomeço de um mar invernoso

E, finalmente, as mansas algas voltarão sorrindo;

 

- Bom dia! Como estão?

 

Todos os anos o mar se veste de algas

Na exacta Primavera

Em que alguém se esquecerá de dar por ele....

 

 

Maria João Brito de Sousa - 21.12.2015

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:26








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