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MEMÓRIAS

Sábado, 02.02.13

 

Nessa noite

uma lua prenha,

rodando tão devagar

que qualquer olhar lhe atribuiria  

a imobilidade do grafismo impresso,

deixou que  uma nuvem cinzenta a tapasse

 

depois,

sobre o louceiro da sala,

no aquário dos sonhos  antigos,

um novo e inesperado peixe incolor

foi-lhe devolvendo a memória dos “crayons”

até que a insubmissão de uma mão imaginária

os quisesse e soubesse ressuscitar na vontade dos dedos

 

fazia tanto frio

na floresta das cores

onde as horas, como agulhas,

lhe apontavam as conchas vazias

de mil gestos sem esperança de fruto…

 

mas bastou

que esse peixe

se agitasse levemente,

que uma palavra

espelhasse a cor da nuvem,

que as invisíveis raízes

suportassem o inevitável tronco,

que o impensável cilindro

se alongasse em ramos impossíveis,

que as velhíssimas memórias

se metamorfoseassem em folhas improváveis

 

para que

a substância do fruto

se viesse a tornar tão real

quanto aquela absoluta urgência

de o ouvir cantar por dentro da novíssima criação

 

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 02.02.2013 – 18.09h

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:57

SEM TÍTULO NENHUM

Domingo, 25.11.12

Esculpo-me,

em silêncio,

na memória das horas

por onde caminho incólume

até à indecisão da última esquina


 

Tempero

a espada da lucidez

e devolvo-me ao poema

no fio dos meus indecifrados sonhos

 

 

Guardo-te,

desassossego,

para o reboar dos sinos,

para o galope dos corcéis,

e para as desilusões do não vivido…


 

Virei por ti

no dia em que for tarde demais para escrever!





 

Maria João Brito de Sousa – 25.11.2012 – 21.27h




IMAGEM - Getação Floral - Maria João Brito de Sousa, 1999

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 21:41

ESPERO-VOS...

Quinta-feira, 01.11.12

Espero-vos

na imprevisibilidade

do tempo por vir,

à esquina do acaso que encontrar,

porque nada em mim é menos imenso

do que este espanto de vos saber alheios…

 

Serena,

percorri os intervalos

entre cada compasso dos minutos

enquanto os anos se dignavam

desenrolar um imenso novelo de memórias

ao longo do qual,

coloridos e  suspensos como jardins,

os dias floresciam

no vivo silêncio dos cinco sentidos

 

Ano após ano,

Fui colhendo os frutos da alegria

exactamente de aonde  a desdenhais

e dissolvi-me

no mais profundo dos sonos

sabendo que o medo me temeria a mim…

 

Sou,

límpida e solidamente,

aquilo que fui tecendo,

sonho a sonho,

numa imensidão de esperas…

como a vossa,

como as dos outros,

como as dos que acreditam

na construção de um rumo,

na despojada escolha de um devir qualquer…

 

Esperar-vos-ei

na imprevisibilidade da cada esquina,

na indefinição do tempo que restar,

no limiar da vossa insultuosa indiferença,

no reacender de cada um dos vossos medos,

no segredo inconfesso das vossas insónias

ou na (des)construção de um palco controverso

onde ninguém saiba de cor o seu papel

e onde jamais se erga a voz sumida do “ponto”!


 

Fá-lo-ei – ou talvez não… -

ainda que nada em mim seja menos visível

do que este espanto de vos saber alheios…




 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.11.2012 -21.08h

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 22:32

APESAR DE TUDO...

Sábado, 12.05.12

 

… mas  chegaste tarde, apesar de tudo…



- Ele era um mundo inteiro de sorrisos e um imenso atropelo de boas vontades… não se avançava quase nada, não se fluía e este amanhã não era por ali…



- Tivesses dito que não… ou empurrado alguém…



- Nunca saberia a quem empurrar… nem porquê. A boa vontade estava toda lá, embora insuspeita, difusa, descontextualizada e incolor…



- Como deste, então, por ela?



- Sentia-se, apenas. Era isso.



- Deixasses de a sentir! Terias chegado à hora combinada, terias sido mais conveniente e não me terias feito esperar…



- Ah, não poderia! Nenhum deles teria percebido que esperavas por mim…



Maria João Brito de Sousa – 11.05.2012 – 00.10h



NOTA – Não é um poema nem uma prosa poética, como muito bem terão reparado. Apenas uma “liberdade” em discurso directo. Uma liberdade no uso do seu pleno direito de não dizer coisa alguma que sentido faça…


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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:46

QUE PENA! - Um poema anti-poético e egoísta, para quando fizer falta rosnar

Segunda-feira, 30.05.11

 

Que pena!

Tenho tanta pena de ter pena

dos olhos de luar que não tiveste,

da refeição frugal que não fizemos

no tal dia em que não nos encontrámos

 

Dessas mãos de sal que te não vi,

sublimando a saudade em gestação,

subiria – talvez…-  o aceno prometido

ou nem sequer esboçado, à força de tardio

 

Nos teus lábios que nunca experimentei

- porque não eram lábios

os riscos trémulos e desbotados

que jamais desenhámos

sobre a suspeição do beijo…-

um sorriso clonado

de todos os esgares que lhe foram anteriores

 

 

Que pena das horas que não passámos juntos

nessas manhãs,

essas que nos encerram

na urgência banal e rotineira

- tão desmesuradamente banal e rotineira! -

do desejo insuspeito

que adivinho

no refrão de cada cantilena

e das tardes,

- quem sabe? -

atarefadas, urbanas, burguesas,

passeando entre o plano do fogão de quatro bicos

 e a perpendicular do mar

 - desse mar que só pode ser olhado por um de cada vez -

aborrecendo o momento seguinte,

barulhentas, conflituosas e – porque não? -

tão exactamente iguais às tardes que são as dos outros

 

Mas pena,

pena a sério,

pena crua e inenarrável,

daquela que magoa,

rasga por dentro e deixa cicatriz,

 

Pena teria eu de não ter podido ser quem sou!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 28.05.2011 -14.47h

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:18








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