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METÁFORA DAS LÁGRIMAS QUE NUNCA CHORAREI

Quarta-feira, 02.02.11

 

Vejo-as

Nitidamente recortadas

No aço frio da silhueta matinal


Trazem

A pureza anímica das aves

Ao momento em que caem

Pulsando

Suavemente

Na tensão superficial

Das águas desse imaginário


Não sei quantas são

Mas são

E basta-me a certeza de as ver

Não sei quantas,

Não sei porquê,

Nem sei exactamente quando,

Na mais lenta queda

Que os olhos me puderem recriar


Depois deixo de as ver

E o lago,

Desinventado,

Dilui-se nas lágrimas que nunca chorarei

 

 

 


Maria João Brito de Sousa – 01.02.2011 – 18.45h

 

 

IMAGEM - Tela de Vincent Van Gogh - retirado da internet

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:56

(SOBRE)VIVENTES

Quinta-feira, 09.12.10

 

 



Nunca as conheceram,
Às flores de água estagnada
Nas pedrinhas
De um passeio imprevisto
Ainda à vossa espera?

No tempo em que os poetas
Eram feitos de papel
E os anjos se vestiam de farrapos
Mais ou menos coloridos,
Havia poças de água
Na fúria de uma sobrevivência
Tão menos visível quanto fascinante

Cresci a olhá-las
Para além da sua visibilidade,
Aprendi a sondá-las
E a reconhecer-lhes uma vontade
Que sempre ultrapassará
A minha,
A vossa,
A do próprio amor…

Nesse tempo
Do papel,
Dos farrapos,
Dos poemas curtinhos
E das tranças com laços,
Fundiam-se perfeitamente

Elas,
As flores de águas paradas
E eles,
Os meus olhos libertos como dantes

 




Maria João Brito de Sousa – 07.12.2010 -19.17h




 

Imagem retirada da internet

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:01

SEJA EM QUE UNIVERSO FOR!

Quinta-feira, 02.12.10

 

 

Aqui estou,
completamente desdobrada
entre o meu eu do primeiro instante
e o meu eu do último segundo,
no momento exacto
em que acabo de riscar
o que foi escrito
e começo a desenhar
a primeira letra do que está por escrever

Isso sou,
não mais e nunca menos,
exceptuando o pequeno intervalo
entre ser e não ser
em que fui tão além
sem que pudesse escrevê-lo
porque escrever não fez,
nem poderia ter feito, o menor sentido

Irei,
enquanto se me não cumpre esta distância
entre antes e depois
e nada mais peço
senão ser
gato-com-ou-sem-botas,
bicho-alado-sem-asas
ou fruto perfeitamente cristalizado
no mesmíssimo ponto
em que qualquer árvore É
antes de lhe apodrecer a raiz
e depois de a Vontade a ter tocado,
seja em que universo for!





Maria João Brito de Sousa – 01.12.2010 – 00.19h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:56

A CONQUISTA DA FLOR PELA SEMENTE

Terça-feira, 16.11.10

 

Lá longe

Ecoa, indómito,

O meu grito,

Fonética estelar

Que eu dignifico

Num jogo universal que não domino

 


Eu desafio,

Mais do que o razoável

E seguro

Nas letras a que já perdi a conta

Das mil canções que crio e nem procuro

 


Tudo isto eu devo

E nada mais me move

Ou me norteia

Senão a mesma força que promove

A devoção lunar de uma alcateia

 


E, sobretudo,

Eu sou,

Como os demais,

Palco e passagem

Dos mil ilusionismos geniais

De uma vontade só, que é divergente,

Qual átomo lançado na voragem

Da conquista da flor pela semente!

 

 

 

 


Ao lobo que mora em cada um de nós


Maria João Brito de Sousa – 14.11.2010 – 18.19h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 10:00

OS VERSOS IMPROVÁVEIS

Quinta-feira, 23.09.10

 

 

Hoje, alquebrada,

Parti perdidamente à descoberta

De um sonho por sonhar

Noutro universo;

 

 

Eram duas ou três aves sem rumo

Na margem da cidade por esculpir,

Duas ou três colinas seminuas,

Duas ou três vontades mal esboçadas

E um canto muito ao longe

A pedir vozes

 

 

Eram duas ou três cordas de estopa

Nos braços da figueira urgente e tosca,

Duas ou três mentiras renegadas,

Duas ou três mil nuvens por chover

E a jangada a afundar-se

Sem memórias

 

Derrotada

Aonde perfeitamente me inventei

Tentei reformular-me

No dealbar dos versos improváveis

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:25

SOLIDÃO

Terça-feira, 20.07.10

 

Fecho-me em solidão.

Sei lá porquê!

Há dias em que o céu me sabe a pouco

E as ondas salgadas

Não fazem outro sentido

Que não esse mesmo sentido

De serem ondas

E serem salgadas.

 

A velha e doce solidão

Tem a vantagem

De estar sempre à disposição

Das minhas indigestões de quotidiano

E abre

Cortesmente

A porta

Às pequenas alegrias

Que virão mais tarde …

 

Além do mais,

Quem disse que a solidão

- essa que dizem, magoa… -

Poderia existir

Depois dos poemas que ainda não morreram?

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.07.2010 – 19.47h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:06

MAIS LONGE

Segunda-feira, 19.07.10

 

 

Ele há lá canto

E voz e fogo ou estrada

Que alcancem o que alcança

Um simples sonho!

 


 


É                           A meta

Exactamente         Essa

Essa                      Exactamente

A meta                  É

 

 


Nunca tinhas reparado?

 

 


Maria João Brito de Sousa

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:19

CANTIGA DE AMIGO DO SÉC. XXI

Segunda-feira, 31.05.10

 

Amigo,

eu não sei que espantos,

que mágoas, que encantos

moldaram quem sou…

 

que arestas

de tão fundas rugas

traçaram as fugas

do que me restou

 

só sei

que tenho a certeza

de ser vela acesa

que o vento da vida,

soprando, soprando,

 

soprando…

fez tremeluzir

e tento sorrir,

porque quero dormir,

Apagar-me sonhando

 

Amigo,

a minha cantiga

de Amigo

é antiga,

tem anos sem fim

de dores e deleites,

e se

tão mal te conheço,

não espero nem peço

Que entendas, que aceites

 

mas canto,

aprendo

e entendo

que, apesar de tudo,

se nela me iludo,

se a teço em veludo

é por querê-la tanto…

 

Amigo,

eu não sei que espantos,

que mágoas, que encantos,

cantando te dou…

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 29.05.2010

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:45

A INVENÇÃO DOS ÓCIOS

Quarta-feira, 19.05.10

Os ócios,

Se os tivesse,

Pintá-los-ia do amarelo da manteiga

E derretê-los-ia,

Lentamente,

Entre a língua da caneta

E o palato do papel

 

Depois,

Se os tivesse, repito,

Trabalhá-los-ia à exaustão das horas

 

Não sei como,

Então,

Lhes chamaria,

Mas sei que o amarelo se decomporia

Numa remota hipótese de verde

Que não o do trevo 

E muito menos o da esperança.

 

 

Maria João Brito de Sousa - 18.05.2010

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 14:37








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