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É DAQUI QUE TE ESCREVO...

Sexta-feira, 11.03.16

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É daqui que te escrevo,

desta vontade que me veste de Abril,

de poemas e de farrapos também,

 

Daqui,

de onde me reconheço em ti espelhada

embora o perfil simples do meu cravo

sem nome, sem espinhos

e tão menos glorioso,

pareça negar cada verso que nasce…

 

Mas é daqui,

deste lado aguerrido de mim

onde vestida de um Abril em farrapos,

não dispo Abril apesar do despontar

desta resistência que te não sei explicar

mas, presumo,

ninguém imaginaria que florescesse ainda…

 

Daqui,

de onde também eu

aprendi a amar a solidão

e a recriar o mundo

na sombra das ausências,

nos anos – tantos… -  do verde caule

de um mesmo sonho de pétalas ao rubro,

 

Daqui

e porque o poema me apeteceu,

insurrecto e vermelho,

este escrever-te sem rima, nem medo,

com as armas florindo num canto maior...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:23

PARADOXO

Quarta-feira, 06.08.14

 



No geométrico azul do teu olhar
bebi,
no aço frio da tua ausência,
uma absurda certeza de te amar
em tragos da mais pura transparência

e tu,

que em mim cumpriste a divindade
no ritual dos corpos partilhados, 
fazendo-me florir, frutificar,
és cego, surdo e mudo
à minha essência...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1999

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:37

ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU...

Sexta-feira, 21.03.14

Não era a minha face

que via nesse espelho...

era a de uma outra Alice

no país dos pesadelos

- a que se transmutava

ao sabor dos cogumelos

e sabia dar corda

ao relógio do coelho... -,

Não era a minha face, com certeza!

 

Era,

talvez,

a da Menina-do-Capuz-Vermelho

apaixonada por um lobo velho,

fugindo com ele do caçador malvado

- a avozinha

comprava os bolos no supermercado

e

todos os dias

dançava rock and roll na penumbra do quarto -...

 

 

da Bela-Adormecida

que nunca mais conseguia adormecer

e se deitava a escrever

cartas de jogo à Bruxa-Arrependida...

 

 

 

da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões

devorando maçãs-desencantadas,

tentando acreditar

que nem tudo são desilusões...

 

 

da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal

a vir da discoteca às cinco e tal...

 

 

do Pinóquio,

sorrindo , no ventre da baleia,

 

 

 

ou

- quem  o sabe? - da Pequena-Sereia,

mas nunca a minha face!

 

Não era a minha face verdadeira!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1992/3

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:01

ARBITRARIEDADE

Domingo, 16.03.14

 

 

Era uma mulher traçada a fio de prumo,

vinda dos tempos primevos do homem-vertical.

 

Dia a dia,

percorria o rumo

que fazia do dia vindouro

um dia insuportavelmente sempre igual...

 

era de noite que brincava aos fantasmas,

na infusão dos incontáveis ectoplasmas

das almas que foram e das que estão por vir

 

por isso,

acordava anoitecida

sem nunca estar segura

de ter acordado do lado de cá da vida.

 

Ora sonhava sonhos,

acordada,

ora cantava, estando adormecida

e o que doía

era viver multiplicada

onde todos a pediam dividida...

 

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:29

ONDE MAIS NOS DÓI

Sexta-feira, 01.11.13

 

 

Onde mais nos dói

é na ferida aberta

pelo momento em que a ceia,

travestida de doçura,

se nos derrama em gelo

sobre a pele nua

e os olhos da lucidez se nos estendem

até ao inesperado veneno

de um cálice que ousáramos afastar…

 

Alguns de nós terão sobrevivido

e permanecido ainda que domesticados,

comprados, vendidos, usados, castrados,

programados, manipulados… mas gratos,

 

na montra (in)comum da exposição banal,

conveniente e pateticamente gratos!

 

 

… porque nem tudo o que luz é ouro

e nem tudo o que alimenta é digerível,

muitos terão morrido, tantos terão lutado

 

e,

 

um dia,

todos teremos conquistado

o direito a recusar a exibição

de um estatuto gravado a fogo

sobre a carne viva da sobrevivência

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.11.2013 – 18.40h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:48

CEDO OU TARDE...

Quinta-feira, 10.01.13

Tarde ou cedo
a noite irá render-se
e o poema erguer-se-á, lúcido,
sobre a raiz das coisas indomadas…



não mais a ousadia burguesa
o insultará perguntando-lhe se se tem “entretido”
no crochet das palavrinhas rebuscadas,
no bric-à-brac das rimas-de-fazer-passar-o-tempo,
na minudência das noveletas de pequeno ecrã,
no suborno adocicado dos adornos doirados
ou das essências-de-atrair-amigo-fácil…



então, arreganhando os dentes,
ele que suou, ele que se multiplicou
em genuínos gestos de alegria, espanto e dor,
ele que ousou decantar, letra a letra,
cada molécula da lucidez
que compõe o soluto do sonho,
ele que sondou e minuciosamente desbastou,
todo e cada ramo da árvore do real
e, quantas vezes, exausto, quase exangue,
soube, ainda assim, recusar o fruto aparente e fácil,
ele que, sem sombra de hesitação,
desafiou, a cada verso,
a todo-poderosa banalidade
munido, tão só, duma alma cheia de barrigas vazias,



levantar-se-á e rugirá
reclamando, não mais, nem menos,
do que o seu merecido direito à dignidade…




Maria João Brito de Sousa – 09.01.2012 – 20.28h





IMAGEM - "O Burguês e a Menina", Julio*


*Pseudónimo, enquanto artista plástico, de Júlio dos Reis Pereira, irmão de José Régio. Enquanto escritor usava o pseudónimo de Saúl Dias.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 00:28

PRELÚDIO PARA UM POENTE COMO OUTRO QUALQUER

Quarta-feira, 28.11.12

Ah, soletro sonhos!

Somo-me em sílabas, silêncios e sons


 

Solidamente

sou e sigo sendo

síncrona, serena e solitária,

sonolenta sobre sobressaltos sonoros


 

sou, sem susto

sou, sem solução

 

sinto, sorvo e solicito essa insolvência…


 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 28.11.2012 -16.44h

 

 

Brevíssimo exercício poético, em sibilantes,

em homenagem à oralidade da língua portuguesa

e, mais uma vez, contra o abominável Acordo Ortográfico


(para ilustração da tela Essência – MJBS -1999)

 

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:30

SEM TÍTULO NENHUM

Domingo, 25.11.12

Esculpo-me,

em silêncio,

na memória das horas

por onde caminho incólume

até à indecisão da última esquina


 

Tempero

a espada da lucidez

e devolvo-me ao poema

no fio dos meus indecifrados sonhos

 

 

Guardo-te,

desassossego,

para o reboar dos sinos,

para o galope dos corcéis,

e para as desilusões do não vivido…


 

Virei por ti

no dia em que for tarde demais para escrever!





 

Maria João Brito de Sousa – 25.11.2012 – 21.27h




IMAGEM - Getação Floral - Maria João Brito de Sousa, 1999

 

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 21:41

NASCE, POESIA!

Terça-feira, 11.09.12

Porque o que sou

me não cabe nas mãos fechadas,

escorrem-me,

por entre os dedos,

estas sobras

do que recuso transformar

em gesto de troca,

artigo de compra e venda,

alimento, embriaguez, culto, ritual

 

e  que és tu, Poesia.

 

Divinizam-te, alguns,

o corpo que não tens

no altar que insistes em não ser,

mas sei-te no cerne de todas as coisas,

escorrendo inevitavelmente

de todos os poros, por todas as frestas,

limpa, lúcida, viva, inexplicada…

 

Cantas, ainda,

onde a esperança morreu,

ressoas no vácuo, apesar de inaudível,

desdobras-te

em invisibilidades e vislumbres,

acendes-te, sublime,

no temor de cada escuridão.

 

 

Inútil, ou não… nasce, Poesia!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 11.09.2012 -01.53h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 02:04

CONTINUAÇÃO

Sexta-feira, 11.05.12

Às tantas faz-se tarde…
um deus sobe,
a pulso,
a corda
da noite fria
de um sol que já não arde
e, morto, desafia
um sonho avulso…

Tricota a velha musa
um espasmo breve,
como beijo que beije sem beijar,
como um roçagar de asas, muito leve,
sobre a gestualidade algo confusa
com que acrescenta a corda, ao tricotar,
liga gesto e matéria…
e mais não deve.

Depois…
nem um nem outro
entendem desistências;
um sobe,
inventa um punho em cada coto
e, a outra, muito além das aparências,
desdenha o mais provável Deus-dará
e redescobre Vida onde a não há…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 11.05.2012 – 16.46h



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publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:50








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