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JUÍZOS

Quarta-feira, 15.12.10

 

Quando as mil gotas de água

da clepsidra

transmutadas em Tempo

nos julgarem

no tribunal

de um escólio já expurgado

virão,

dos muitos olhos que nos lerem,

juízos

mais ou menos razoáveis

que esse distanciamento proporciona

 

Nesse entretanto,

alguns nada verão

e os outros...

mil imagens desfocadas

por espelhos reflectindo o que contêm

 

 


Maria João Brito de Sousa – 15.12.2010 – 00.49h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:47

CHÃO DE MIM

Quarta-feira, 17.11.10

 

Toco este chão

Com olhos de quem beija

E sei que não embarcarei

Mais vez nenhuma


Chão de mim

Em mutação constante

Que outra força

De mim te afastaria?


Constantemente o toco

Com mãos ocas de um nada

Que despejo

E depois recolho

Cheias de um tanto

Que só eu desvendo


Por isso sei

Que não embarcarei

Enquanto as mãos

Puderem sentir

E pressentir

O chão que me deu vida

 

 


Maria João Brito de Sousa

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:16

PARA QUE CONSTE

Segunda-feira, 25.10.10

 

Para que conste;


Eu tenho veias, carne

E sonhos como os vossos

Mas jamais escreverei

Sobre estrelas

Que não tenha conhecido desde sempre


Um longo esteio de velas desfraldadas

Nos murmúrios de um imaginário-racional

Precede o olhar com que contemplo o mundo

Para vo-lo devolver um pouco menos mau


Não aceito,

Para que conste,

Que um único de vós me acuse de um ócio

Engendrado por mentes saciadas

[muito embora inconscientes

da sua futilidade]


Para que conste,

Produzo

Tanto ou mais

Do que as mãos de outro qualquer

E consumo

Invariavelmente menos

Do que o corpo ou a mente

Da maioria de vós


Para que conste,

Por vezes as tardes doem-me

Como folhas de Outono

No mármore do tempo

Mas nenhum medo me conquista o estro

Enquanto acreditar


[PARA QUE CONSTE]

 


Maria João Brito de Sousa – 23.10.2010 – 23.14h

 

 

Na fotografia - Eu, ao colo da Aurorinha.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:37

LÁ LONGE...

Segunda-feira, 27.09.10

 

 

Porque lá longe,

Aonde nunca os via,

Eram meras silhuetas esfumáveis

Ao mais pequeno sopro da vontade


Aí, aonde perfeitamente

O presente os colocara

Talvez viessem a poder salvar-se

De serem contemplados

Com os olhos lúcidos

De uma inevitável avaliação


Execrava

Qualquer tipo de manipulação

Abominava

Todas as duplicidades

De que os fracos necessitam

Para poderem sentir-se fortes

[mesmo que nunca o reconheçam

e se acreditem bem intencionados]


Por isso,

Lá longe,

Onde a sua piedade os colocara

Seria sempre

O único local possível

Para os proteger

Da sua própria estupidez

Segundo o olhar implacável

Da lucidez de um julgamento imparcial

 

 


Maria João Brito de Sousa – 26.09.2010 – 12.35h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:56

ABUTRES E BEIJA-FLORES

Segunda-feira, 30.08.10

 

Via-os por ali

Hilariantes,

Patéticos fantasmas de abutres

Babando-se de incontida curiosidade


Via-os

Quando se dava ao trabalho de olhar,

Se se dava ao trabalho de olhar


Inacreditáveis somatórios

De infortúnio e pobreza

Muito bem vestidos,

Muito míopes,

Muito desequilibrados,

Muito bêbados

Muito opinativos

E muito pouco inteligentes


Umas vezes

Irritavam-no,

Noutras

Enchiam-no de pena


Alguns,

Mais puros

Do que o bando comum

Pousavam devagarinho

E ficavam

Na imobilidade nervosa

Da sua timidez.


Pequenos beija-flores

Que não chegavam

A beijar coisa nenhuma,

Raros,

Silenciosos,

Bem-intencionados

E belos


Na esmagadora maioria

Dos dias

Nem sequer os via

Muito embora por lá continuassem

Simulando

Uma indiferença

Que só a ele

Legitimamente pertencia.

 


Maria João Brito de Sousa – 29.08.2010 – 01.54hs

 

 

IMAGEM - Stuart Carvalhais

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:41

SOLIDÃO

Terça-feira, 20.07.10

 

Fecho-me em solidão.

Sei lá porquê!

Há dias em que o céu me sabe a pouco

E as ondas salgadas

Não fazem outro sentido

Que não esse mesmo sentido

De serem ondas

E serem salgadas.

 

A velha e doce solidão

Tem a vantagem

De estar sempre à disposição

Das minhas indigestões de quotidiano

E abre

Cortesmente

A porta

Às pequenas alegrias

Que virão mais tarde …

 

Além do mais,

Quem disse que a solidão

- essa que dizem, magoa… -

Poderia existir

Depois dos poemas que ainda não morreram?

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.07.2010 – 19.47h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:06

EVIDENTEMENTE...

Terça-feira, 13.07.10

 

Bastar-nos-á entretê-lo

De quando em vez

Com um prato de lentilhas

E meia dúzia de palmas ensaiadas.


Será quanto baste

Pois é louco, o pobre…


Como poderia não o ser

Se foi sua a escolha de sobreviver

No limbo do humano conforto?


Por isso

Nos bastará entretê-lo

Na mansidão do seu imaginário

Antes que acorde…

Antes que rosne

E possamos descobrir

Que os pobres somos nós

E que o limbo

É esta dependência

Dos humanos recursos que nos movem

Enquanto regurgitamos

Certezas

E sentenças

Que, evidentemente,

Serão sempre as mais correctas


Evidentemente!

 


Maria João Brito de Sousa

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:37

O HOMEM QUE, URGENTEMENTE, PRECISAVA DE COORDENADAS

Segunda-feira, 05.07.10

 

Coordenadas

Dêem-lhe coordenadas

Antes que se perca

Ou antes que o mundo

O perca a ele

 

Apontem-lhe caminhos,

Forneçam-lhe bússolas,

Relógios,

Sinais de trânsito

E amores

Daqueles que se vendem

E se regateiam

 

Mas, antes de mais,

Forneçam-lhe as tais coordenadas

Não vá

Evaporar-se no ar,

Dissolver-se nos rios,

Sublimar-se no éter

 

Sem que alguém tenha,

Pelo menos,

Tentado mantê-lo uno,

Dentro

Do convenientíssimo invólucro

Que alguém se esqueceu de selar…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 04.07.2010 -23.49h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 10:52