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PEQUENOS LUXOS

Terça-feira, 22.11.16

Pequenos luxos.jpg

 

Nenhum medo,

mas todas as formas de o negar

vinham bater-lhe à porta naquele dia

pintado de fresco.



Havia ainda

o pormenor rústico

da inesperada lata de grão-de-bico

que

(por mero acaso)

encontrara na despensa em desalinho

(e)

havia

o requintado rancho-fingido

que efectivamente fingira cozinhar

sobre a única boca do fogão desmantelado

(e)

havia

a gata,

bêbeda de sol,

espreguiçada nas lonjuras da marquise,

longe do desconsolado consolo dos livros cobertos de pó

(e)

havia

aquelas paredes transpiradas

que sempre vestira como a uma segunda pele

(pequenos luxos, enfim...)



O galope ritmado,

imparável,

do decassílabo heróico,

esse,

voltará



Nunca sabe quando,

mas sabe

que um dia voltará,

grávido de som,

pujante, indomável,

a galgar as planícies de oiro do poema.



Não baterá à porta,

nem se fará anunciar.

 

Jamais um galope selvagem

se poderia fazer anunciar.





Maria João Brito de Sousa - 22.11.2016 - 18.56h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:25

FIGURA DE PROA (poema descritivo de um sonho real)

Segunda-feira, 21.12.15

Barcopapel.jpg

Pinta-se o céu de negras aguarelas;

Rasgam-no, de alto a baixo,

Centelhas amarelas

E grita irada, a voz de algum trovão.

 

Na praia choram

As mulheres dos pescadores

E sou, no sonho, a Figura de Proa

da barca de insuspeitos pecadores...

 

 

Eu, que tenho medo

Dos líquidos abismos

E da dureza impenetrável dos rochedos,

A condenar-me a morrer de mil medos

Num negro mar que me desconhecia...

 

 

E, do fundo do mar, um deus rugia:

- Por mim não passarás impunemente!

Mas oiço a minha voz que lhe pedia:

- Salve-se, ao menos, a tripulação!

Reboa a  gargalhada em que o deus respondia:

 

- Quem és, insignificante criatura,

Que prezas vida que não seja a tua?

 

- Sou quem da barca se fez capitão,

E, por amor de quem nela labuta,

Tomo o seu leme nesta minha mão!

 

 

Neptuno troça, mas abranda a fúria,

Vulcano cala as vozes do trovão

E a Barca, então, balança, docemente,

Como se o Universo inteiro, de repente,

Se comovesse com tal devoção...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993 (?)

 

Nota - Poema reformulado a 21.12.2015

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 17:52

NESTE DIA...

Domingo, 04.05.14

 

 

No dia que começa,

venho dizer-te bom-dia

e redescobrir-te o sorriso

na memória das sardinheiras,

quase murchas,

mas ainda vermelhas

nas conchas de barro em que as plantavas

 

Venho,

neste dia de memórias,

lembrar-te, mais uma vez,

que te amo e,

agora que não sei se és nem onde és,

confessar que sempre te considerei

demasiado rendida à superfície das coisas,

alheada das raízes do tempo,

 

presa ao lado de cá

das janelas de onde brotam os sonhos

que transcendem a luta pelo abraço imediato

 

Mas isso era eu…

eu quando,

pequenina como as sardinheiras,

enlaçando uma raiz sem tempo,

desprezando todas as janelas,

me esquecia,

 - também eu e até eu! -

de não poder julgar-te

porque, afinal,

eras tu quem as plantava sorrindo,

sem suspeitar, sequer,

de que pudessem render-se e murchar…

 

Hoje,

dia da criança,

dia em que não sei se és,

nem onde és, mas não esqueço que foste,

uma lágrima, só uma, como tu,

que tanto temias a morte

e te deixaste levar

antes de teres podido aprender

o segredo das flores que aceitam

abraços de um tempo por trás das janelas,

muito depois da superfície das coisas - tantas! –

que nunca chegaste a descobrir

 

E resta-me,

vermelho como as sardinheiras,

o teu sorriso espelhado na vidraça,

enquanto,

nesta lágrima tão única como tu,

tão enraizada quanto o tempo,

hoje como dantes, Mãe,

teimo em (d)escrever-te para além da espuma das coisas

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.06.2011 – 09.29h

 

Reformulado em 04.05.2014 a partir do original de 2011

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:51

O DOM DA PERMANÊNCIA

Quarta-feira, 30.04.14

 

A mulher recebe.

Firme como a rocha,

Recebe

Exactamente

Quem mereça ser recebido.

 

Ainda não é velha…

Mas parece

(digo; APARECE…)

 

Cabelos mais sal do que pimenta,

Olhar que amedronta

Exactamente

Quem mereça ser amedrontado,

A mulher

Aguenta-se sozinha,

Canta,

Resiste,

E escreve

Movida a coca-cola

(digo;

COLA DIET,

marca branca,

sem açúcar, nem cafeína)

A ESCOLHA ACERTADA

(diz a Deco,

Digo; o ECO)

 

A mulher é como os gatos;

Paciente e indomável,

 

Como as muralhas;

Dura e inexpugnável,

 

Como as árvores;

Firme e produtiva.

 

Persiste,

Cria raízes,

Firma-se-lhe o tronco,

Multiplica-se em frutos

POR MAIS QUE

AS HORAS MORRAM DEVAGAR!

 

Não se gasta,

Gasta à vontade

(digo; A VONTADE)

Acende e mata

O suave português

(digo; PORTUGUÊS SUAVE...

AZUL, SE FAZ FAVOR!)

 

Veste-se

Como se se não vestisse

E invade as ausências

Com inquietante quietude.

 

A mulher está.

Está a mais,

Está demasiado,

Incomoda.

 

 

Pontual,

A mulher sai…

Mas permanece.

(digo; FICA!)

 

 

Maria João Brito de Sousa – Janeiro 2000

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 20:49

POEMA A UMA RESISTÊNCIA PESSOAL

Terça-feira, 11.03.14

 

… e, às vezes,

tantas vezes de aço vivo,

esta dureza vítrea em que me embrulho,

este trajar de fraga

de alto a baixo,

este mergulho em mim

negando laços

e este dizer que não quase a rugir…

 

um dia

- um qualquer, eu sei lá quando… -,

o bicho em mim acordará estremunhado,

esquecido da espada e da armadura,

e refar-se-á nos sorrisos e abraços

que hoje não toleraria

 

Porque

só assim uma vida se cumpre,

o sol brilhará quando for tempo disso

e o corpo aprenderá a tolerar tanta invernia

 

Até lá, porém,

a luta continua

e, de alguma estranha forma,  

os órgãos, um a um, persistem

nesta estranha/inaudível surdina

onde nem um pretenso mago cairia

na absurda tentativa/tentação de adivinhar

que rumo, que áspera textura ou qual a dimensão

da densa/dura crosta que todos os golpes pressupõem

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 27.12.2013 – 18.15h

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 13:40

ONDE MAIS NOS DÓI

Sexta-feira, 01.11.13

 

 

Onde mais nos dói

é na ferida aberta

pelo momento em que a ceia,

travestida de doçura,

se nos derrama em gelo

sobre a pele nua

e os olhos da lucidez se nos estendem

até ao inesperado veneno

de um cálice que ousáramos afastar…

 

Alguns de nós terão sobrevivido

e permanecido ainda que domesticados,

comprados, vendidos, usados, castrados,

programados, manipulados… mas gratos,

 

na montra (in)comum da exposição banal,

conveniente e pateticamente gratos!

 

 

… porque nem tudo o que luz é ouro

e nem tudo o que alimenta é digerível,

muitos terão morrido, tantos terão lutado

 

e,

 

um dia,

todos teremos conquistado

o direito a recusar a exibição

de um estatuto gravado a fogo

sobre a carne viva da sobrevivência

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.11.2013 – 18.40h

 

 

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:48

CEDO OU TARDE...

Quinta-feira, 10.01.13

Tarde ou cedo
a noite irá render-se
e o poema erguer-se-á, lúcido,
sobre a raiz das coisas indomadas…



não mais a ousadia burguesa
o insultará perguntando-lhe se se tem “entretido”
no crochet das palavrinhas rebuscadas,
no bric-à-brac das rimas-de-fazer-passar-o-tempo,
na minudência das noveletas de pequeno ecrã,
no suborno adocicado dos adornos doirados
ou das essências-de-atrair-amigo-fácil…



então, arreganhando os dentes,
ele que suou, ele que se multiplicou
em genuínos gestos de alegria, espanto e dor,
ele que ousou decantar, letra a letra,
cada molécula da lucidez
que compõe o soluto do sonho,
ele que sondou e minuciosamente desbastou,
todo e cada ramo da árvore do real
e, quantas vezes, exausto, quase exangue,
soube, ainda assim, recusar o fruto aparente e fácil,
ele que, sem sombra de hesitação,
desafiou, a cada verso,
a todo-poderosa banalidade
munido, tão só, duma alma cheia de barrigas vazias,



levantar-se-á e rugirá
reclamando, não mais, nem menos,
do que o seu merecido direito à dignidade…




Maria João Brito de Sousa – 09.01.2012 – 20.28h





IMAGEM - "O Burguês e a Menina", Julio*


*Pseudónimo, enquanto artista plástico, de Júlio dos Reis Pereira, irmão de José Régio. Enquanto escritor usava o pseudónimo de Saúl Dias.

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 00:28

METÁFORA - O Manifesto

Segunda-feira, 03.09.12

Eu digo-te

que o sol floresce limpo

sobre o estrume das aparências

e que as palavras são casas nas cidades da voz

 

digo-te

que as ruas são mãos a repousar,

que as coisas de pedra são canções

e que as canções são luas, de tão brancas…

 

dir-te-ei,

vez por outra,

que as plantas são mulheres e homens

cansados da colheita improvável,

que os dias – todos eles –

são movimento,

que as noites são o esconderijo

dos sonhos à espera de acordar

e que os muros são pontes entre agora e depois

 

falar-te-ei de passos sem distância,

de espaços sem medida,

de memórias sem tempo

e de gente sem medo de morrer,

mas jamais me ouvirás falar de renúncia

enquanto o murmúrio me for permitido

na cidade da voz libertada

 

Também a metáfora se come, se bebe

e não sabe render-se enquanto viva

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 03.09.2012 – 18.12h



Imagem retirada do jornal "Avante!" - Guernica, Pablo Picasso

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publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:07








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